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Entrevista com Neno Fernando, uma das grandes vozes do metal nacional

Neno Fernando uma das vozes do Metal Nacional

Neno Fernando: Uma das poderosas vozes do metal nacional conta ao Line Rockers grande parte da sua trajetória musical.

“Tudo o que produzimos ficará marcado eternamente na história, mesmo que poucos notem, mas estará ali, feito, marcado e escrito.”

O vocalista Neno Fernando começou a se interessar pela música aos seis anos, quando ganhou seu primeiro violão, mas apaixonou-se pelo canto aos 13 anos de idade.

No colégio, teve seu primeiro contato com algumas bandas covers: Ramones, Metallica, Black Sabbath, Iron Maiden, Deep Purple, Faith no More, entre outras. Aos 16 anos, começou os estudos de técnicas vocais. Foram por 10 anos de estudo, optando pelo canto popular e erudito. Estudou com professores particulares, inclusive o renomado Chico Campos, que também havia dado aulas para o grande vocalista brasileiro Andre Matos (ex-Viper, Angra e Shaman).

Em 1996, iniciou sua carreira como professor de canto, abrangendo uma didática própria com métodos exclusivos e muito rico em técnicas aplicadas ao Rock, Heavy Metal e popular em geral. Quatro anos mais tarde, montou a Arte Musical, sua própria escola de música. Ministra aulas de técnicas vocais há mais de 20 anos. Além da escola de música, Neno Fernando é proprietário do NF Studios, que oferece edições, gravações, mixagens e produção musical.

Neno concedeu uma entrevista exclusiva ao site do Line Rockers.

Como se deu início a sua trajetória musical?
Neno Fernando: O início da minha trajetória musical ocorreu aos 6 anos de idade, quando ganhei meu primeiro violão da minha irmã. Apesar da pouca idade, eu já tinha uma paixão muito grande pela música. Minha mãe fez minha matrícula em um conservatório musical, onde estudei violão por 6 meses. Abandonei o curso e voltei a me interessar pela música aos 13 anos, mas dessa vez comecei a estudar canto, até chegar ao profissionalismo. Desde então nunca mais perdi o contato com a música.

Quais os álbuns e vocalistas que influenciaram o seu estilo?
Neno Fernando: Sou um tanto eclético. Gosto de Heavy Metal, Pop dos anos 80 e 90, Dance Music, Progressivo, entre outros. Dentro do estilo que faço profissionalmente, existem vários artistas e álbuns que foram referências para minha formação, por exemplo: Michael Kiske ( Helloween ), James Labrie ( Dream Theater ), Mike Patton ( Faith No More ), Sebastian Bach ( Skid Row ), Geoff Tate ( Queensryche ), Russell Allen ( Symphony X ), Michael Sweet ( Stryper ) Geddy Lee ( Rush ) dentre outros vocalistas que foram minhas inspirações iniciais. Álbuns existem muitos, alguns deles são: The Real Thing e Angel Dust ( Faith No More ), Signals ( Rush ), Images and Words ( Dream Theater ), Slave to the grind ( Skid Row ), The Odyssey ( Symphony X ) e Seventh Son of a Seventh Son ( Iron Maiden ).

Você já participou de grupos como Destra, Portrait, Eterna e atualmente está com o Abstract Shadows e o Maestra. Poderia fazer uma comparação da sua evolução entre os grupos anteriores e seu momento atual?
Neno Fernando: Sou muito grato por ter feito parte de grandes bandas do cenário nacional, pois são bandas excelentes onde aprendi muito com elas. Posso dizer que meu início como vocalista profissional ocorreu em 2000, quando entrei no Destra. Foi uma banda que me fez adquirir muita experiência como frontman. Fizemos shows pelo Brasil todo, algumas gravações oficiais, e todo o aprendizado durou os 2 anos que estive na banda. Lançamos 1 single oficial e 1 vídeo clip oficial.

Em 2002 entrei no Abstract Shadows, banda que teve uma grande importância na minha carreira. Aprendi muito sobre composição, dinâmica de palco e gravação em estúdio, sendo realmente um grande laboratório na minha formação como profissional. Lançamos com o Abstract Shadows 1 EP e 1 álbum full intitulado Symphony of Hakel.

Em 2004 entrei para o Portrait, banda renomada no cenário. Foi muito importante, pois fiz grandes amigos, aprendi muito sobre cantar heavy metal, pois é uma banda mais power, e tive que suar a camisa para adquirir técnicas variáveis para suprir as necessidades da banda. Minha permanência durou 12 anos, e lançamos 2 singles oficiais ( Voices e Mask ).

Em 2010 entrei para o Eterna, uma das maiores bandas de Heavy Metal do Brasil, que tem o seguimento católico. Também foi um grande aprendizado,  pois foi a primeira banda, de tamanha grandeza, que pude compor e cantar. Também foi importante para mim, pois como a banda estava muito tempo sem lançar um álbum oficial, acabamos lançando o sétimo disco da carreira do Eterna, o Spiritus Dei, que saiu em 2014.

Com o Eterna voei mais longe, pois tive a honra e a oportunidade de mostrar ao mundo meu trabalho, também como produtor e técnico de estúdio, no qual assinei toda a produção, mixagem e masterização. Eu tinha a preferência de que este álbum fosse totalmente em inglês, mas acabou saindo em português. Foi gratificante ter feito parte do Eterna onde lançamos 2 singles, 1 EP e 1 álbum full.

Em 2014, eu e meu eterno companheiro José Cardillo, logo após nos desligarmos do Eterna, montamos o MAESTRA. Banda autoral, que está gravando o disco de estreia, previsto para sair no primeiro semestre de 2017.

Até o momento lançamos oficialmente com o MAESTRA, 2 singles e 1 vídeo clip.

Toda essa trajetória fez com que eu criasse uma particularidade em minha voz e estilo de trabalho, pois nos dias de hoje, percebo que é muito difícil um vocalista ter uma identidade. Claro que temos influências, mas no geral, percebo tudo muito igual e sem alma, e me sinto privilegiado em manter essa singularidade, mesmo alguns torcendo o nariz, afinal, nunca agradaremos à todos. Mas quem realmente entende o propósito, acaba entendendo onde quero chegar.

Em relação aos grupos do qual você fez parte, qual importância que cada um teve em sua carreira. Quais os erros ou desavenças do passado, que não quer que se repita futuramente?
Neno Fernando: Como expliquei anteriormente, todas as bandas que passei foram extremamente importantes para a minha carreira, pois hoje, toda característica vocal, técnica e identidade foram criadas graças aos momentos que estive ao lado de grandes músicos. Sobre os erros, existem alguns momentos que são importantes passarmos até mesmo para adquirirmos experiências, e sermos seres humanos melhores, em todos os sentidos.

Uma banda é muito difícil de lidar, pois cada um tem sua característica, seus sonhos, seu modo de pensar, enfim, tem que haver tranquilidade, aceitar opiniões adversas, mas nunca pode perder o respeito. Existiram alguns momentos que não desejo mais passar, mas como disse, foram momentos importantes que trouxeram aprendizado. Mas repito, nunca, jamais pode haver falta de respeito.

Sou um cara difícil ás vezes por que cobro muito, pois quero ver as coisas fluindo, dando certo, e isso é o que mais pega, pois quero o melhor para todos. Se todos estamos nesse sonho juntos, tem que haver união, foco e profissionalismo, caso contrário, não funcionará e o ego tomará conta de tudo.

Geralmente, você mesmo compõe as letras, ou divide as autorias das músicas com os outros integrantes?
Neno Fernando: Geralmente faço as linhas melódicas e as letras posteriormente. Atualmente crio a linha melódica com uma métrica, que tenham palavras e vogais que facilitam explorar as técnicas vocais, e meu parceiro José Cardillo escreve as letras em cima dessa minha métrica. Funciona muito bem, e é dessa forma que estamos dividindo tarefas no MAESTRA, já que estou cantando todas as vozes do disco, editando, mixando e masterizando o álbum. Mas gosto de escrever também, no Abstract, Portrait e Eterna assinei diversas letras.

Como surgiu a ideia de formar o Maestra?
Neno Fernando: O Maestra foi criado após eu e meu parceiro José Cardillo termos nos desligado do Eterna. Foi uma situação difícil pela qual passamos no Eterna, e com nossas saídas da banda, o criamos. Queríamos montar uma banda altamente técnica, com músicos excelentes, e que fosse algo muito profissional.

Qual a maior dificuldade em ter uma banda autoral nos dias de hoje? O que você acha que pode ser mudado, no geral, para que o metal nacional tenha mais espaço?
Neno Fernando: A maior dificuldade em ter uma banda autoral nos dias de hoje é encontrar músicos que tenha vontade de lutar pra valer. Não sei o que aconteceu, mas parece que na maioria dos casos os músicos estão cada vez mais sem vontade de iniciar algo.

Percebo que muitos querem já pegar o “barco andando”, uma banda já pronta, já gravando, com empresário, e shows a mil para fazer. Isso não existe mais. Eles tem que entender que ter uma banda, para muitos de nós hoje, é um trabalho árduo. Precisamos ter foco, precisamos ter disciplina, ter força de vontade e se doar, pois é como outro emprego. Precisamos mostrar serviço para que o objetivo seja alcançado. Dependemos disso para mantermos nossas carreiras firmes e vivas, além de músicos, somos professores de música, a nossa verdadeira renda se dá por conta de nossos alunos, nossas aulas.

A música autoral no Brasil infelizmente quase não existe mais, não temos espaço algum para mostrarmos nossa arte que anda completamente desacreditada no Brasil, principalmente Rock-Heavy cantado em inglês. Sou um cara realista, e não prevejo uma melhora nisso tudo não. Infelizmente prevejo cada vez mais a decadência, por uma série de fatores, incluindo músicos como citei, casas e bares de shows, e a maioria do público que infelizmente perdeu o interesse nos artistas, principalmente aqueles mais undergrounds.

Você lançou alguns tributos também, que inclui Angra, David Bowie e Freddie Mercury. De onde partiu a ideia?
Neno Fernando: Sim , lancei alguns desses tributos. A idéia surgiu pelo fato de eu querer gravar algumas músicas que fizeram parte da minha vida e da minha formação musical. Eu não curto ter uma banda para tocar cover, mas gosto de cantar músicas que me marcaram, então decidi criar o Neno Fernando Project, que é um projeto que irei gravar várias releituras de canções que fizeram parte dessa minha formação. Chamarei vários amigos músicos para gravarem comigo, desde acústico até mesmo versões plugadas.

Acabo de lançar um tributo ao Pink Floyd, com a música Goodbye Blue Sky. O amigo e grande violonista Thomas Incao participa, e a versão ficou genial. Fazer o que gosto, o que me dá prazer, é o que me realiza e me deixa feliz.

Como você define este momento de sua carreira?
Neno Fernando: Estou em um momento que quero fazer muitas coisas ainda, mas muitas coisas mesmo. Hoje me vejo mais velho, mais experiente e “menos” sonhador. Mais profissional.

A parte técnica está mais apurada, e ando colocando em prática aquilo que me realiza pessoalmente, sem pensar apenas no lado mercadológico. O músico é, sempre foi, e sempre será sensível demais. Precisamos fazer o que nos traz felicidade e realização.

Neno Fernando e sua filha Nicole

Neno Fernando e sua filha Nicole

O que você tem ouvido? Alguma coisa nova que tem chamado sua atenção?
Neno Fernando: Como citei anteriormente, existem ainda alguns trabalhos que me traz inspiração, mas no geral, infelizmente, vejo o mais do mesmo, vocalistas imitando uns aos outros sem identidade, e tudo muito mecânico demais em termos de musicalidade. Mas ainda existem algumas coisas que traz uma “luz no fim do túnel”.

Gosto muito do Devin Townsend, que é um músico genial, um vocalista completo e um baita compositor. Gosto muito ainda de alguns monstros da música como Russell Allen, Bruce Dicknson, Jorn Lande e James Labrie, pois ainda estão fazendo algo de qualidade. Mas,no geral, vejo muita coisa perdida e sem autenticidade.

Você também é professor de técnicas vocais , e montou sua própria escola musical. Conte-nos sobre a escola, e há quanto tempo ministra essas aulas?
Neno Fernando: Sou professor de canto há mais de 20 anos. Montei minha escola de música, a Arte Musical, há mais de 15 anos, e com ela aprendi muito como ser empresário, professor e músico profissional. Muito gratificante tudo isso.

Além da escola de música, você é proprietário do NF-Estúdio, onde faz trabalhos como produtor musical, mixagem, gravação e masterização. De onde veio a ideia de montar seu estúdio próprio, e como funciona?
Neno Fernando: Sim, além da Escola Arte Musical, sou proprietário do NF-Estúdio, e nele faço todas as minhas produções, gravações, mixagens e masterizações. A ideia de montar o estúdio surgiu da necessidade, pois precisava sempre estar indo ao estúdio gravar. E dentro da escola Arte Musical, eu tinha um espaço excelente, assim, montei duas salas de gravação.

Neno Fernando NF-Estúdio

Neno Fernando NF-Estúdio

Logo, iniciei meus estudos de produção, de como gravar, microfonar, usar DAW ( programa de gravação ). No caso me especializei no Pro Tools, e fui suprindo minhas necessidades, pegando cada vez mais o gosto de gravar. Hoje em dia isso é algo mais comum. Muitos músicos tem Home Studios, e facilita muito, pois podemos gravar tudo em casa, editar, enfim, tudo fica mais dinâmico e prático. Por outro lado, perde-se um pouco aquele clima de estar dentro de um estúdio grande, ficar dias e dias gravando um álbum, tendo o contato direto com os músicos e vendo todo o trabalho tomando forma aos poucos, e isso é algo que está acabando nos dias hoje. Mas o NF-Estúdio foi uma das melhores coisas que criei junto com a Escola Arte Musical.

Quais são seus projetos para 2017? Algum em andamento?
Neno Fernando: Meus projetos para 2017 são: Lançar o disco do Maestra, fazer workshops e workshows. Lançar várias releituras do projeto Neno Fernando Project. Tenho também um álbum solo que pretendo colocar em prática este ano. Estar focado cada vez mais no ensino musical com minhas aulas, e trabalhar cada vez mais. Produzir sempre, pois a música nunca pode parar.

E para finalizar, sinta-se à vontade para passar uma mensagem final:
Neno Fernando: Quero agradecer imensamente a oportunidade para eu falar um pouco dessa minha carreira, que completa mais de 20 anos, sempre lutando e buscando alcançar meus objetivos com dignidade e profissionalismo.

Agradeço a todos os que sempre me apoiam, a todos que acreditam naquilo que busco e luto. Peço aos músicos que lutem mais, invistam mais seu tempo em coisas produtivas e faça cada vez mais trabalhos com amor, dignidade e com o coração. Não busquem a competição, pois sempre digo que cada músico, cada vocalista tem seu espaço e sua particularidade. Busquem suas identidades, e deixem as comparações e competições de lado.

O que interessa é a música, é a arte que iremos deixar aqui na terra. Tudo o que produzimos ficará marcado eternamente na história, mesmo que poucos notem, mas estará ali, feito, marcado e escrito. Façam aquilo que lhes traga felicidade e realização, pois isso é a coisa mais gratificante que podemos ter.

Obrigado a todos de coração, forte abraço!

Acompanhe Neno Fernando através das redes sociais e outros links abaixo:

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