Entrevistas

Entrevista com Nuno Mindelis, o melhor guitarrista de blues do mundo, eleito pela Guitar Player.

Nuno Mindelis

Nuno Mindelis, eleito o melhor guitarrista de blues do mundo pela Guitar Player americana, também conhecido pelos norte-americanos como “The Brazilian Beast”.

Foto: Leandro Almeida

Nuno Mindelis: “The Brazilian Beast”

Eleito o melhor guitarrista de blues do mundo pela revista americana Guitar Player, Nuno Mindelis também é conhecido pelos norte-americanos como “The Brazilian Beast” (algo como “Fera Brasileira”).

Nascido em Angola, em 1957, foi morar no Canadá em 1975, e um ano depois, para a nossa sorte, decidiu unir-se à família que já morava no Brasil. Apaixonou-se pela música por volta dos cinco anos. Aos nove, já tocava com instrumentos confeccionados por ele mesmo.

Ao longo da carreira, Nuno impressiona com sua discografia invejável (sempre muito bem recebida pela crítica mundial). Alguns ábuns tiveram participações especiais: Double Trouble (banda do lendário guitarrista Stevie Ray Vaughan), Larry Mc Cray (ex guitarrista da banda de Gary Moore) e J.J. Milteau (um dos gaitistas mais importantes do mundo).

Discografia:
Blues e Derivados (1989) em formato LP Vinil pelo selo Eldorado.
Long Distance Blues (1992) relançado em 1998 como Nuno Mindelis & The Cream Crackers.
Texas Bound (1996)
Blues on the Outside (1999); curiosidade: fotos do encarte clicadas na Praça da Sé, marco zero da Capital SP.
Twelve Hours (2003)
Outros Nunos (2005)
“Free Blues” (2010)
“Angels & Clowns (Feat. The Duke Robillard Band)” (2013)

Nuno Mindelis | Créditos: Bolívia & Cátia Rock

Nuno Mindelis | Créditos: Bolívia & Cátia Rock

Nuno Mindelis concedeu ao Line Rockers uma entrevista exclusiva em que resume bem sua carreira, e conta a história de cada álbum produzido. Confira!

Em que momento da sua vida você pensou em ser músico, e como ocorreu seu contato com o blues?
Nuno Mindelis: Nunca pensei nisso, tenho a sensação de ter nascido músico. Da mesma forma que nasci desenhando, escrevendo e fazendo outras coisas de forma instintiva, natural, poesia etc.. Parece tudo um mesmo pacote. Pensei um pouco mais conscientemente em ser profissional já quando adulto, talvez se a minha vida tivesse evoluído em sequência normal, até tivesse pensado nisso antes, mas no meio houve um corte (exílio/guerra) que me obrigou a pensar em outras coisas (sobreviver uma delas) durante muito tempo. Ocupou mais de uma década, pelo menos.

Você construía seus próprios instrumentos. Como fazia?
Nuno Mindelis: Eu via os meninos africanos (não descendentes de europeus, como eu sou) fazerem violõezinhos com latas de azeite de 5 litros, abria-se um círculo e virava a caixa acústica, depois encaixava-mos um braço de madeira e usávamos linhas de pesca como cordas. Eu usava qualquer coisa que emitisse um som, latas, caixinhas disto e daquilo, facas de mesa como baquetas (elas pulam e vibram igual, quando percutidas) . Isso foi logo aos 5 , 6 anos de idade. Nas aulas no primário eu ficava experimentando sons com material escolar, usando lápis como baquetas sobre latas de material escolar, simulando levadas de bateria, essas coisas.

Qual foi a sua primeira guitarra? Há alguma preferida?
Nuno Mindelis: Comprei a minha primeira guitarra aos 17 anos no Canadá, uma Gibson Lespaul Custom. Logo no começo do exílio. Trabalhei numa fábrica, era um ‘faz-tudo”, varria o chão carregava peso, essas coisas. Assim que comprei pedi demissão. Minhas guitarras prediletas são (hoje em dia) semi acústicas, Gibson ES 335 e Fender Telecaster Thinline (dois exemplos). Mas há outras que me fazem sonhar. Antes disso toquei sempre com guitarras emprestadas. Só tinha violões, mais baratos. Os adultos me emprestavam guitarras porque ficavam impressionados com o que eu fazia, era precoce. (copiava Jimi Hendrix aos 11 anos, eles tocavam em bandas de baile coisas tipo Elvis e até repertório pré Rock and Roll, ficavam impactados).

Foram muitas as dificuldades no início? Como as contornava?
Nuno Mindelis: Eu sempre encarei como um caminho sem volta, ou dá certo ou dá certo. Se der errado, morro. Então só tento sobreviver. É a vida que está em jogo. Mesmo artisticamente, se em dado momento a arte morrer em mim, eu morrerei , é o meu eco sistema. Portanto sempre estrebucho para continuar. (-:

Quais os músicos que te influenciaram na época? Quais discos ouvia?
Nuno Mindelis: Putz ..!! Mais fácil dizer os que não ouvia. Até aos 17 anos eu ouvi literalmente tudo o que rolou no planeta, de música. Aos 15 eu já tinha mais de 1000 Lps e outro tanto de compactos. Isso ia de todo o Rock inglês, americano e europeu , Progressivo, Rock and Roll, a Baden Powell, Benjor e Secos & Molhados, Chico, passando por John Coltrane, Chick Corea, Mahavishnu, Zappa , Jimi , Dylan, Muddy Waters , Otis Redding, Booker & MGs, Santana, enfim tudo o que você possa imaginar. Woodstock ! Diga um disco daquela época e direi a ficha técnica completa e dados curiosos sobre ele. (-:

Criança, antes disso tudo, ouvi muita música clássica e cantores e cantoras (especialmente franceses) Bécaud, Brassens, Brel, Piaf etc. por conta do que os meus pais ouviam em casa. Eu devorava música como se estivesse com fome, obcecado. Lia todas as frases, símbolos e sinais gráficos que apareciam numa capa de LP , incluindo referências microscópicas, de rodapé, disposições legais, copyright, distribuição, gráfica, números, endereços da gravadora e gráfica, logos, tudo!

Nascido na Angola em 57, foi morar no Canadá em 75, e um ano depois, decidiu unir-se à família, vindo também morar no Brasil. Sua melhor base de aprendizado se deu em qual dessas épocas?
Nuno Mindelis: Em Angola. Ali foi o celeiro. E era lá que estava na idade em que se é mais vulnerável às influências definitivas. Quando cheguei ao Canadá, com 17 anos, já tocava e já tinha absorvido milhões de informações que ficam para sempre. Era como um HD que armazenava gigas e gigas. Recebi o primeiro cachê oficial (no guichê de uma gravadora multinacional) aos 14 anos, por participação em faixas de uma banda Angolana de sucesso. A ideia do produtor foi misturar guitarra e psicodelia com a música africana e mandou me buscar no Liceu. Tinha praticamente deixado de usar calções nessa altura, de tão criança.

Em 1989, foi lançado o seu primeiro disco solo Blues & Derivados, que passou a ser tocado em rádios, além de receber inúmeros elogios da crítica. Como foi o processo desse disco?
Nuno Mindelis: Os donos de um estúdio me convidaram depois de um show. A Rádio Brasil 2000 andava tocando fitas cassete de apresentações minhas. (Roberto Miller Maia era admirador  – e hoje somos muito amigos –  e fazia questão de mostrar a minha música na rádio. Foi gesto precioso.

Na véspera da gravação o baixista e o baterista me abandonaram. Gravei vários baixos eu mesmo, chamei um amigo baterista (gravou sem ensaio e sem conhecer o repertório, pescando na hora) e a todo o baixista que entrava no estúdio a gente dizia “quer gravar uma faixa”? E dessa forma pelo menos três pessoas diferentes gravaram baixo no disco. Além de mim. Uma versão de uma música do Caetano em levada “shuffle” com guitarra slide, estourou na Rádio Eldorado.

Long Distance Blues, foi seu segundo trabalho lançado em 1992. Nele, houve a participação de Larry Mc Cray, ex guitarrista da banda de Gary Moore, e J.J. Milteau, o gaitista mais importante da França, e um dos mais importantes da Europa. Quais foram os efeitos desse disco para a sua carreira?
Nuno Mindelis: Me lembro de ter chamado a atenção de setores importantes da mídia, como a Revista Veja, que dedicou um espaço grande ao disco. Continuou a espiral ascendente que tinha começado com Blues & Derivados. Long Distance era um disco gravado no estúdio Mosh, com mais qualidade.

BB King elogiou o título desse disco quando lhe entreguei em encontro, na época. Ele já ia embora, de costas, virou para trás e repetiu várias vezes “beautiful title”. Entretanto a gravadora reeditou esse mesmo disco 8 anos depois, mudou a capa, a ordem das músicas e … o título! (virou Creamcrackers, que era o nome que dei para a banda). Sem me consultar. Parecia outro disco e muita gente que já o tinha comprou achando que era novo. Indústria fonográfica em geral tem a mania de interferir, agem como quem dita a um pintor quais cores usar ou mudam a cor do quadro depois de pronto.

Nuno Mindelis e BB King

Nuno Mindelis e BB King

Como foi ser reconhecido internacionalmente pela revista “Guitar Player” americana, em 94, e ainda ser comparado a Jimmy Page pelo editor Jas Obrecht, uma das maiores autoridades de blues do mundo?
Nuno Mindelis: Apesar de não ter sido um artigo extenso, (foi uma nota “Spotlight “sobre  o Long Distance Blues) foi uma realização pessoal, algo que alavancou a auto confiança e a confiança da crítica e público no Brasil. Jas era o editor da revista e realmente uma das maiores autoridades na matéria, com livros publicados. Esse artigo foi lido no mundo todo, recebi cartas na época de monte de gente dos EUA, França, etc, pedindo o disco. Spotlight é recomendação do editor.

Em 96, foi a vez de Texas Bound, e com esse disco você agradou plateias do mundo todo, realizando uma série de turnês bem sucedidas. Como foi essa época para você?
Nuno Mindelis: Essa foi provavelmente a época mais incrível. O disco foi licenciado pela conceituada Antone’s Records (Texas) para a Alemanha, que fabricou e distribuiu para a Europa toda e também nos EUA. De repente eu estava em tudo o que era loja da Europa (não havia distribuição digital, é bom lembrar) o disco chegou a ser 12º em vendas no Benelux (Holanda / Belgica / Luxemburgo) nas prateleiras de blues internacional, junto com os grandes nomes, BB , Buddy Guy, Robert Cray, todos os títulos de gravadoras como Alligator, Delmark etc. Saiu na Rolling Stone (Alemanha) , na Living Blues, em tudo o que foi lado,  enfim, foi muito interessante. Frequentou charts europeus de mais tocados e mais vendidos.

Nomes respeitados da cena como Ford Blues Band (ex banda de Robben Ford) chegaram a abrir show para mim no sul de França e me lembro que Patrick Ford (irmão de Robben) apareceu com o Texas Bound embaixo do braço, dizendo que onde passava só via rastro dele. Disse também ter visto artistas e bandas europeias tocando músicas desse disco  em clubes em que ele entrava por lá.

Outro grande destaque na sua carreira ocorreu em 98, quando foi eleito o “Melhor Guitarrista de Blues” segundo o concurso mundial de aniversário de 30 anos, da mesma revista americana “Guitar Player”. Quais foram as consequências?
Nuno Mindelis: De novo, foi mais uma coisa de reforçar auto confiança, credibilidade e realização pessoal. A GP (Guitar Player) fez um disco que foi distribuído para a indústria nos EUA. Não veio nenhum contrato disso mas o prêmio é meu, existiu e faz parte do currículo. (-: E mais uma vez a visibilidade foi grande, é a Bíblia mundial da guitarra, distribuída pelo planeta.

Blues on the Outside, lançado em 99, foi outro disco amplamente elogiado pela mídia nacional e internacional, assim como Twelve Hours, de 2003.  Fale mais sobre esses dois trabalhos?
Nuno Mindelis: Em Blues on The Outside retomei a parceria com a Double Trouble, graças à Trama Music, que investiu no projeto. Dali resultaram turnês com essa banda, fizemos o (antigo) Credicard Hall e o (antigo) Palace (trocam tanto de nome que não sei como se chamam hoje) além de monte de cidades no Brasil.  A música The Grass is Greener foi a mais executada na época (na verdade creio que um pouco depois, em 2003)  em todas as rádios de Electric Blues do planeta, de acordo com monitoramento 24hs da Live 365 , recebi algo sobre isso.

Antes disso “Hugs” do album Texas Bound tinha ficado em número um na ‘parada’ da extinta  MP3.com por semanas. Começaram a chegar cheques em dólar naquela época. Achei que seria uma tendência para ficar finalmente o reconhecimento por décadas de suor ! Mas durou pouco, as rádios e portais agora pagam milésimos de centavos. Twelve Hours foi Top seller da CDBABY por meses. Teve um amontoado invulgar de críticas positivas de jornalistas e público e comparações estelares. (ainda acessáveis no site).

No disco Outros Nunos, de 2005, as composições são voltadas para o pop, a MPB e não apenas para o blues. E novamente entrou na lista de melhores do ano.  Como se deu a ideia de diversificar o estilo, e como foi o processo de gravação?
Nuno Mindelis: Eu precisava (e ainda preciso) me reinventar, sou irrequieto artisticamente, politicamente, enfim, sou irrequieto de modo geral. E queria expressar-me em português. Os meus heróis de infância são os negros americanos do Blues, mas os meus heróis literários são outros. Não plantei algodão no Mississipi, estudei em escola de currículo europeu, outra realidade, outras informações. Tudo o que você é explode um dia, de um jeito ou de outro. Não basta reverenciar os seus heróis musicais. Tinha (e tenho) baús com textos e poesias, livros inacabados (um acabado) etc. Achei que deveria experimentar, jogar para fora ! E usei eletrônica também, junto com o Blues e o Rock.

Carol Borrington, da Blues Matters Magazine/Inglaterra escreve : “Neste disco você vai ouvir umas das melhores guitarras da atualidade”. Ela se refere ao seu sétimo trabalho, Free Blues, de 2010. Esse álbum propõe uma renovação, como rap, lounge, Jazz moderno, house e outros. Como surgiu essa ideia?
Nuno Mindelis: Meio que a mesma coisa de Outros Nunos só que desta vez fiz releituras de clássicos do Blues e do Rock que fizeram a minha cabeça quando criança, minhas principais influências, como Dave Mason, Muddy Waters, Howling Wolf , Bluesbreakers, essas coisas. Quando criança, fui arrebatado pelo Blues que já não era o tradicional também. A partir de caras como Clapton, Stones, Mayall, que injetaram eletricidade, rock and roll e psicodelia no Blues rural e no blues de Chicago, gerações foram arrebatadas para o Blues e o gênero foi POP por 30 anos ou mais. Em Free Blues imaginei que crianças de hoje poderiam apaixonar-se (senão, pelo menos conhecer) o Blues só que com injeção adicional de eletrônica e gêneros mais contemporâneos, rap, house, etc.. É assim que as coisas continuam, em vez de irem mais cedo para museus. Preciosos como Picassos, mas em museus, como já é o caso do jazz tradicional, da Ópera, etc.

O álbum Angels & Clowns, de 2013,  teve a produção e participação de Duke Robillard, e você passou a ser contratado da própria gravadora dele.  O que isso significou para a sua carreira?
Nuno Mindelis: Ainda estou avaliando (-:

Mas já foi muito honroso, Duke colabora com gente como Bob Dylan, Tom Waits e muitos outros. E esse disco representa de certa forma a remoção de alguns obstáculos, foi uma vitória para mim, como compositor e arranjador. Tenho orgulho (e isso é raro) de algumas músicas que criei ali.

E para finalizar, fale sobre seus projetos para o futuro. O que podemos esperar para 2017?
Nuno Mindelis: Voltei a concentrar lá fora, devo estar mais nos EUA (e talvez Europa) em 2017.  Um disco de Blues “back to the Roots?” Talvez. Tenho vários projetos acabados e não editados, um disco todo em português de novo (melhor que outros Nunos, garanto) estou feliz em ter Ramilson Maia remixando a minha produção rabiscada dele, não sei se / quando editarei.

Tenho um livro pronto faz anos, não sei se/quando editarei. (ando meio cheio de ser independente, fui a vida toda e cansa, acho que gostaria de editar essas coisas com apoio corporativo, digamos, embora atualmente só gêneros mais popularescos tenham direito a isso). Mas sou um eterno sonhador. Pretendo fazer um programa semanal (esteja onde estiver) em Live Streaming para todos os meus seguidores de redes sociais (não são poucos tendo em conta eu ser um outsider dos outsiders) como diz uma amiga minha, “independentes têm associações, disputam o Grammy e a gente nem associado é,  somos os independentes dos independentes”.  (-: Certíssima. Tudo o que ‘incorpora” vira corporativista, geralmente acaba em compadrio e exerce função contrária ao objetivo original.

Acompanhe Nuno Mindelis através do seu site oficial e também pelo facebook

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