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John Lawton fala sobre o retorno do Lucifer’s Friend e relembra a sua carreira

foto de Alexandre Cardoso

“Adoraria fazer um dueto com Paul Rogers, ele é meu cantor favorito e cantar com ele seria demais.”

Conhecida, principalmente por seus trabalhos em bandas como Lucifer’s Friend, Les Humphries Singers e Uriah Heep, a voz de John Lawton destaca-se como uma das mais versáteis da música. O músico interpreta estilos musicais tão variados e diversos que partem desde o gospel até o heavy metal.

Embora o álbum de estreia de Lucifer’s Friend seja semelhante a Uriah Heep, a banda apresentou diferentes tipos de gêneros musicais, como rock progressivo e jazz. De fato, Lucifer’s Friend era conhecido por mudar o estilo musical em cada álbum, mostrando a variação vocal de John em cada um deles.

A lendária Uriah Heep, sofreu muitas mudanças de formação desde o início. No entanto, em 1976, a banda estava prestes a sofrer a mudança de formação mais difícil, substituindo o vocalista David Byron. A troca de um vocalista é a coisa mais difícil que uma banda pode fazer, e são poucas as que prosperam depois que um cantor é substituído.

John Lawton, passou o difícil papel de se tornar o vocalista de Uriah Heep. Ele foi aceito pelos fãs e mostrou-se memorável nessa sua passagem (1976-1979). Até hoje, uma das músicas que ele co-escreveu com o guitarrista Mick Box, “Free ‘n’ Easy”, é um grande sucesso nos shows de Uriah Heep.

Saiba mais sobre a carreira desse grande vocalista nessa entrevista concedida ao Line Rockers

Como começou sua carreira musical?
Olá… tudo começou quando eu tinha 16 anos e com alguns amigos da escola decidimos formar uma banda. Todos escolheram os instrumentos que queriam tocar, e o único “trabalho” que sobrou pra mim foi cantar, rs.  Nós nos chamávamos “The Denes”, e aquilo durou dois anos antes que seguissemos caminhos diferentes.

Quais eram suas influências nessa época?
Elvis, Chuck Berry, depois The Kinks e Yardbirds. Depois me tornei um fã de blues ouvindo Eric Burdon, The Animals e por causa deles passei a ouvir os verdadeiros artistas de blues como John Lee Hooker, Robert Johnson, Muddy Waters, etc. E depois, claro que o que veio na sequência foi o rock.

Como o Lucifer´s Friend foi formado? Como você conheceu os membros originais?
Cheguei em Hamburgo em 1970, após um amigo ter dito que meu futuro musical estaria na Alemanha. Fui convidado para cantar em um álbum chamada Asterix, e na verdade eram os caras do Lucifer´s Friend que estavam gravando esse álbum mas com um nome diferente. Eles também tinham gravado um álbum mais pesado com o nome de Lucifer´s Friend e estavam procurando por um vocalista inglês para cantar nele. Depois que me escutaram no Asterix, eu consegui o trabalho.

De 1969 a 1976, o Lucifer´s Friends gravou muitos álbuns. Como era o processo de composição? Os outros membros chegavam com ideias e você escrevia as letras depois? Como isso funcionava?
A música sempre vinha primeiro e depois as letras. Sempre foi assim, claro que havia mudanças a serem feitas nos ensaios, mas na minha opinião sempre funcionava muito bem. Hoje, porque vivo em Londres e os outros caras em Hamburgo, fazemos tudo pela internet, mudando as coisas durante o processo. Depois, nos reunimos em Hamburgo para ensaiar.

Qual era o motivo de todo álbum ter um estilo diferente do anterior?
Nunca planejamos gravar um álbum diferente a cada vez. As melodias escolhem o caminho pelo qual as músicas irão. Por exemplo, no álbum “Banquet”, depois de ouvir as músicas compostas para esse álbum, decidimos incluir uma sessão de sopros e cordas (é meu álbum favorito dos quais gravamos) e realmente funcionou muito bem. Provavelmente o álbum “Mean Machine” foi gravado com algo mais pesado em mente e também foi o primeiro gravado fora da Alemanha.

Em 1976, você saiu da banda para se juntar ao Uriah Heep ou houve algum tipo de problema no LF?
Não, nunca tivémos problemas no LF, apenas as ocasionais discussões musicais, mas nada sério. Na época, três dos caras estavam ocupados com a James Last Orchestra e eu estava fazendo shows com Les humphries Singers. Recebi um telefone de Ken Hensley me perguntando se eu gostaria de ir a Londres e fazer uma audição para a banda. Contei para os caras do Lucifer´s Friend, que entenderam e me desejaram boa sorte, então nunca houve qualquer ressentimento.

Você já conhecia a banda?
O nome era familiar, porque eu tinha cantado “Easy Living” numa coletânea lançada na Alemanha, mas fora isso eu não conhecia muito a música deles. Na verdade, eu tive que comprar o álbum “Best of Uriah Heep” para aprender algumas músicas para a audição, acho que foram “Stealing” e “July Morning”.

O quão importante foi o Uriah Heep na sua carreira?
Muito importante, foi grande parte da minha vida por quase quatro anos e estranhamente, ainda é. Conheci partes do mundo que eu provavelmente nunca visitaria e aprendi muito musicalmente com os caras. Ainda somos bons amigos e já substitui Bernie Shaw algumas vezes quando ele esteve doente. O Uriah Heep abriu muitas portas para mim durante toda a minha vida e por isso, eu sou extremamente grato.

John Lawton no Uriah Heep

Pensando na sua carreira, há algo que você se arrepende de ter ou não feito?
Depois de pensar muito, acho que não. A única coisa que é um quase arrependimento é não ter feito outro álbum com a John Lawton Band. Os caras eram músicos tão bons que realmente deveríamos ter feito outro álbum depois de “Sting in the Tale”.

Com quais músicos você gostaria de fazer uma jam e ainda não teve a oportunidade? E por quê?
Uau, é uma bela pergunta… há tantos, tanto do passado quanto do presente. Adoraria tocar com o ZZ Top, é a minha banda favorita, mas eles já tem quem cante, rs. Além deles, Paul Rogers. Adoraria fazer um dueto com Paul, ele é meu cantor favorito e cantar com ele seria demais.

Em 2014, uma aguardada reunião do Lucifer´s Friend foi anunciada. Como isso aconteceu?
Recebi um telefonema de um promotor americano perguntando sobre a possibilidade de reunir a banda. Apesar da proposta dele não ter ido adiante, fez com que pensássemos sobre essa reunião. Conversei com os caras e eles estavam interessados, menos o tecladista Peter Hecht, que disse não querer o stress de tudo isso, e estava vivendo tranquilamente na Dinamarca. Então convidamos Jogi, que tocou os teclados no álbum “Sumo Grip” e Stephan, que tocou bateria na James Last Orchestra e outras bandas de rock na Alemanha.

Lucifer’s Friend (2016)                                                                       photo: Hiroyuki Yoshihama

“Too Late to Hate” é o primeiro álbum de estúdio da banda desde 1981. Vocês usaram alguma antiga sobra de estúdio ou são novas músicas?
Todas as músicas são novas, compostas para esse álbum.

Como foi o processo de composição e gravação?
Peter Hesslein fez cerca de 20 músicas, então eu escutei todas elas e decidimos quais queríamos gravar. Escrevi todas as letras e mudei algumas melodias e estávamos prontos. Peter gravou todas as bases instrumentais em seu computador e depois, aos poucos, gravamos o baixo, bateria, teclados, etc, em um estúdio em Hamburgo. Eu gravei todos os meus vocais em um estúdio perto de Londres e depois mandamos tudo para a mixagem. Foi um longo processo, mas tudo deu certo no final.

Você pretende vir ao Brasil com o Lucifer´s Friend? Há rumores sobre shows no final desse ano.
É claro que adoraríamos tocar no Brasil e realmente houve conversas sobre isso, mas nada confirmado 100%. Mas aguardem novidades.

Do que se lembra da última vez que tocou aqui?
Oh, era quente e grudendo, mas eu gostei de verdade. Os brasileiros com quem toquei eram muito bons e o público foi muito receptivo… foi ótimo.

Sobre sua carreira solo, do que mais gosta e por quê?
Minha carreira solo é baseada na Bulgária. Faço muitas coisas por lá, além dos meus shows solo com músicos búlgaros, eu apresento e dirijo documentários de viagem sobre o país, que por sinal é lindo. Também faço um festival chamado “July Moning Festival” e todo ano, no dia 1 de julho às 5:30 da manhã quando o sol nasce, eu canto a música do Uriah Heep “July Morning”. Tenho feito isso pelos últimos 10 anos e é uma sensação incrível.

Última pergunta: na sua opinião, qual o futuro da música? Qual sua relação sobre as plataformas digitais como Spotify e iTunes? Como vê a indústria musical atualmente?
Pessoalmente, acho que o rock terá um bom futuro. Vejo os mais jovens nos shows realmente curtindo as músicas, apenas de eles não as terem escutado quando foram lançadas. O iTunes é algo bom, mas precisa ser usado com cuidado. É tão diferente dos anos 70 quando não tínhamos algo como a internet ou as ferramentas tecnológicas de ontem. Hoje os músicos podem gravar seus álbuns sozinhos, nem precisam de banda. Acho tudo bom, mas eu sinto faltas dos dias de antigamente.
John

foto de Alexandre Cardoso

 

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