Entrevistas

Fernando Savaglia a referência em Black Music no Brasil

Fernando Savaglia

Músico, jornalista e psicanalista: confira a entrevista com o baixista Fernando Savaglia, referência em Black Music no Brasil.

 “COMECEI A REFLETIR SOBRE COMO O MERCADO DA MÚSICA ERA ABSURDO. AQUILO ME DEU UM BODE TOTAL. DAQUELA REFLEXÃO SURGIU UMA RESOLUÇÃO: DALI EM DIANTE EU SÓ TOCARIA, ESCREVERIA OU TRABALHARIA EM PROJETOS QUE FIZESSEM UM REAL SENTIDO PARA MIM.”

Fernando Savaglia começou a tocar baixo na adolescência, mas desde os 11 anos de idade já era apaixonado por soul e disco music. Especializou-se no que os americanos chamam de R&B e no Brasil se conhece como black music. Além disto é um pesquisador do assunto.

Há anos possui colunas em revistas especializadas como a Bass Player falando do tema.  Já acompanhou inúmeros artistas do estilo (inclusive norte-americanos) ao vivo ou em gravações. Possui dois discos lançados com projetos seus, método, inúmeros artigos publicados e já realizou dezenas de workshops pelo Brasil. Também é jornalista e psicanalista.

Revista Cover Baixo | Fernando Savaglia

Revista Cover Baixo | Fernando Savaglia

Confira a divertida entrevista com o músico, considerado referência no Brasil quando o assunto é black music.

Fale um pouco do porque você escolheu o baixo como instrumento?
Tenho uma irmã que curtia disco music no final dos anos 70. Comecei a escutar este tipo de som e acabei me apaixonando pelo som do baixo. Em 1980, com quatorze anos, assisti dois shows de artistas que me inspiraram a participar deste universo, respectivamente Jimmy “Bo” Horne e Earth, Wind & Fire. Resolvi comprar um baixo. Daí em diante comecei a tocar em projetos e com artistas do estilo.

Quais projetos?
Fernando Savaglia: O primeiro que teve um destaque na mídia foi o Orangofunk, no começo dos anos 90. Quem montou a banda foi a Neusa Romano, uma cantora muito conhecida pelo seu trabalho em musicais. Engraçado que na época, tocar disco e funk era uma excentricidade. Fomos a primeira banda de São Paulo a apostar neste tipo de repertório.

O grupo ficou cult e sempre que tocávamos no famoso Aeroanta, ficava gente de fora da casa de tão lotado. A banda era muito boa e fomos convidados pelo SBT para gravar um Programa Livre especial dedicado a disco music, acompanhando o Ed Motta. A partir daí começamos a viajar muito.

Foi seu primeiro trabalho como músico profissional?
Fernando Savaglia: Não, minha estreia como profissional foi uns anos antes acompanhando o cartunista Spacca, que criou um show de imitações. Mas aí o som era MPB. O cara fazia aquilo de maneira genial, na verdade, ele fazia caricaturas de astros da música brasileira ao vivo.

Tinha vinte e poucos anos e experimentei pela primeira vez o lado bom e o ruim de fazer turnês pelo Brasil. Lembro que ensaiamos pela primeira vez num dia, e no dia seguinte já estávamos gravando o programa do Jô Soares. Acho que tenho uma conexão mística com o SBT, né? (Risos).

E a história do Programa Mulheres em Desfile? (Risos)
Fernando Savaglia: Este foi na TV Gazeta. Pouco antes do Orango se separar em 1996, fui convidado para substituir a baixista de um grupo chamado Las Ticas Tienen Fuego. Eles tinham recebido um prêmio MTV de banda revelação ou algo assim.

Tocamos no Brasil todo pelo Mercado Mundo Mix, que era um evento cultural alternativo e que o vocalista da banda, Caíto Maia (proprietário da Chilli Beans), foi um idealizador. Um dia fomos ao Mulheres em Desfile divulgar uma coletânea que a banda fazia parte. Era um programa vespertino gravado no teatro Gazeta e que tinha como público alvo senhoras aposentadas, lembro que minha avó assistia.

Antes de subir ao palco os caras ficaram refletindo sobre a desimportância daquele programa para carreira do grupo e resolveram fazer algo diferente (risos). Resultado: metade da banda tocou seminu. A apresentadora, Yone Borges, ficou uma fera. A plateia se dividiu entre o frisson e a desaprovação diante daquele protesto (risos).

E o Mo’ Jama? Vocês construíram uma trajetória bacana na cena alternativa…
Fernando Savaglia: Sim. Chegou um momento que queria partir para o meu trabalho autoral. No começo de 1998, encontrei a Graça Cunha (cantora) num supermercado (risos). Conversamos um pouco e ela estava na mesma pegada. Montamos o Mamma Soul.

A ideia inicial era tocar clássicos do soul e aos poucos irmos colocando nossas músicas nos shows. Produzimos uma demo bacana e sempre batíamos na trave com as grandes gravadoras. Em 2000 assinamos com a YBmusic, selo alternativo que na época tinha lançado os CDs da Nação Zumbi, Andrea Marquee, Sabotage, Instituto, Trio Mocotó, entre outros.

A gravadora pediu para a gente alterar o nome do grupo porque existia um homônimo no Chile. Daí rebatizamos de Mo’ Jama. Tivemos a sorte de trabalhar com um produtor muito fera, o Maurício Tagliari que nos ajudou a gravar um disco com um grande poder pop, no bom sentido da palavra. O Estadão ou a Folha nos incluiu naquele movimento apelidado de “novo soul nacional” do começo dos anos 2000, que contava com Max de Castro, Paula Lima, Simoninha, etc. No final de 2004 a Graça resolveu sair para tocar a carreira solo dela.

É verdade que a Maria Gadú cantou no Mo’ Jama?
Fernando Savaglia: Sim, por um breve período depois que a Graça saiu. Na época ela era adolescente ainda e não saia dos nossos shows. Apesar de muito menina já era absurdamente talentosa, e de vez em quando subia para dar canja. Ela sabia o repertório melhor que a gente (risos).

Quando a Graça saiu, a gente já estava preparando o material para o segundo disco. Chegamos a gravar umas demos com a Gadú. Tem registro disto na internet. Na verdade, passaram pessoas talentosas pelo vocal do Mo’ Jama, só que não soava mais como Mo’ Jama se é que você me entende.

O SBT não cruzou com a história do Mo’ Jama (risos)?
Fernando Savaglia: Sim, acredite se quiser por duas vezes. Ainda em 1999 fomos gravar o programa da Babi Xavier na emissora e pela primeira vez tocamos “7781”, uma música minha que havia composto uns anos antes, depois de um papo de quatro horas com um Hare Krishna na esquina da Avenida Brasil com a Rebouças, em São Paulo.

Na verdade, é um groove com uma pegada funk (americano) que fala sobre desapego. Tocamos e a platéia se acabou de dançar e pegou o refrão na hora. Aquilo foi animador, comprovou que a gente estava na direção certa. Mas acho que a história mais maluca se deu mesmo no final de 2007, uns três anos depois que a banda tinha acabado. Lembro que na época estava muito preocupado porque estava apertado de grana e minha filha estava para nascer. Uma noite a Graça veio jantar em casa e papo vai, papo vem, ela me perguntou se eu já tinha ido pegar meu dinheiro referente aos direitos autorais do Mo’ Jama. Juro que eu nem lembrava disto. Na semana seguinte fui atrás e descobri que tinha uma grana para receber que dava para pagar a médica, e boa parte da maternidade. 80% desta grana era referente a inclusão de “7781” na trilha sonora do programa Casa dos Artistas, do SBT.

A direção musical do programa estava a cargo da Laura Finocchiaro (cantora) que adorava a música. Anos depois cruzei com ela num show de um amigo. Eu não a conhecia pessoalmente e me apresentei. Queria lhe agradecer e comecei a contar a história e antes que terminasse a gente estava chorando. A vida tem destas coisas…

Com quem mais você tocou profissionalmente na sua carreira?
Fernando Savaglia: Muita gente. Entre gravações, turnês, programas de TV, shows, etc a lista é grande. De cabeça além dos já citados Mo’ Jama, Orangofunk e Ed Motta, tem também, Leiloca (Frenéticas), Orquestra Paulista de Soul (banda), Las Ticas Tienen Fuego (banda), Kenny Brown (cantor), Andrea Marquee (cantora), Akira S e as Garotas que Erraram (Banda), André Martins (guitarrista), Jimmy “Bo” Horne (cantor), Edú Negão (rapper), Music 4U2B (banda), Tiago Kiss (cantor), Vanessa Jackson (cantora), LaLaLa (banda), Thaíde (rapper), Bukassa (cantor), Ellen Oléria (cantora), DBS Gordão Chefe (rapper), Banda do Papaee e muitos outros.

Quaіѕ ѕão ѕuaѕ prіncіpaіѕ іnfluêncіaѕ? Como você deѕcreverіa ѕua forma de tocar?
Fernando Savaglia: Minha maior influência foi um baixista chamado Bernard Edwards, que foi um dos fundadores do grupo Chic. Na época quando comecei, sem internet, acabei desenvolvendo uma maneira de tocar que de alguma forma remetia a sonoridade dele. Quando finalmente tive acesso as imagens dele em ação, percebi que tinha desenvolvido a minha maneira de soar como ele (risos).

Você disse que um dos shows que assistiu na adolescência e que te inspiraram a tocar baixo foi o de Jimmy “Bo” Horne, intérprete de clássicos como “You Get Me Hot” e “Dance Across The Floor” e hoje em dia você toca justamente com ele…
Fernando Savaglia: Sim, desde 2010. Mr. Horne, além de ser um ser humano fora de série e um cantor fantástico, tem histórias maravilhosas para contar. Não é para menos, o cara foi um dos protagonistas da TK Records, uma das maiores gravadoras de funk e disco music de todos os tempos. Ser elogiado e ter a confiança de um cara que eu cresci escutando é uma realização.

Jimmy “Bo” Horne e Fernando Savaglia

Jimmy “Bo” Horne e Fernando Savaglia

Sendo um estudioso do assunto, explique sobre a polêmica entre o funk americano e o funk carioca. No caso, o Miami Bass foi um grande vilão?
Fernando Savaglia: Nas últimas décadas a mídia brasileira passou a chamar equivocadamente de “funk” uma vertente de um sub-estilo de hip-hop chamado miami bass. Como diria meu amigo, o DJ Grand Master Ney, “se nos Estados Unidos, o país de origem, o miami bass não é reconhecido como funk, é porque não é funk”.

A confusão se deu porque até o início dos anos 80, se tocava realmente funk nos bailes do Rio que eram chamados de “bailes funk”. Depois progressivamente o estilo foi sendo substituído pelo hip-hop. Dizem que foi uma matéria do Jornal do Brasil no final dos anos 80 que deu o start na confusão. O jornalista apelidou de “funk carioca” as primeiras produções de MCs brasileiros em cima do miami bass.

Aos poucos a grande mídia, que cá entre nós nos últimos anos não prima pela argúcia, foi se referindo ao Bonde do Tigrão e outros simplesmente como “funk”. Não precisa ser muito sensível para perceber que Earth, Wind & Fire e Ludimila por exemplo, em suas respectivas obras, não compartilham de uma mesma inspiração, objetivos e influências musicais. Não se trata de uma opinião elitista ou preconceituosa, e sim uma constatação. O funk de James Brown foi usado como trilha sonora da autoafirmação da comunidade afrodescendente dos EUA. Tem tradição e tem que ser respeitado.

Você participou de um debate sobre o tema com o Mc Catra num programa de TV, não é?
Fernando Savaglia: Sim, no programa da Luciana Gimenez. Tudo de forma respeitosa, só informando. Repito, não é preconceito, simplesmente é se ater a especificidade dos fatos: aquilo que andam chamando de “funk” ultimamente no Brasil, não é funk. Um estilo musical é definido de acordo com a sua anatomia musical. Portanto, caberia aos Djs e músicos do genuíno funk reconhecerem este miami bass como “funk”, e isso definitivamente não acontece. Aliás, que eu saiba, no dia que o James Brown gravou “Cold Sweat”, considerado o primeiro funk da história, não tinha nenhum antropólogo na banda.

E a psicanálise, como surgiu na sua vida?
Fernando Savaglia: Desde adolescente eu sentia um vazio existencial. A paixão pela música segurou a onda, mas foi nesta época que comecei a ler filosofia e psicanálise em busca de um alivio para as angústias. Sou formado em comunicação social e teve fases da minha vida que eu intercalava a profissão de músico com o jornalismo. Então esta coisa de ter duas profissões estava ok para mim.

Com trinta e poucos anos fui fazer minha formação em psicanálise, mas sinceramente, mais para me entender do que para atuar. Lembro que em 2006, fiz uma turnê com uma cantora/modelo que estava lançando seu primeiro CD por uma grande gravadora. A banda era muito boa, mas acho que a menina se assustou com a rapidez com que as coisas aconteceram em sua carreira e dias antes de primeiro show ficou comprovado que ela não conseguiria cantar ao vivo. A solução foi a banda usar um clique tocando de verdade e ela dublando a própria voz.

Comecei a refletir sobre como o mercado da música era absurdo. Aquilo me deu um bode total. Daquela reflexão surgiu uma resolução: dali em diante eu só tocaria, escreveria ou trabalharia em projetos que fizessem um real sentido para mim. Como era apaixonado por psicanálise, comecei a clinicar. Hoje em dia sou docente convidado da Sociedade Paulista de Psicanálise.

Como os pacientes lidam o com fato de você ser músico?
Fernando Savaglia: Alguns pacientes acham curioso ou mesmo excêntrico eu ter uma outra carreira como músico profissional. Mas felizmente, aquele preconceito de que você não pode fazer duas coisas distintas está acabando. Aliás, tenho bons amigos que estão em situação similar: Ricardo Giuffrida (psiquiatra e violonista), Du Moreira (psicanalista e baixista), Beto Machado (analista existencial e pianista). Talvez o mais famoso caso seja o de Denny Zeitlin que é professor de Psiquiatria da Universidade da Califórnia e já lançou mais de 30 discos como pianista de jazz.

Algum novo projeto em vista?
Fernando Savaglia: Estou escrevendo um novo método para baixistas sobre soul, funk e disco music. Além disto, venho participando como comentarista do programa Excelsior, na Better Web Radio do meu amigo Fê Pinatti, um Dj também apaixonado por black music. E pretendo continuar tocando até quando aguentar.

Para finalizar, cite 5 álbuns fundamentais para os iniciantes na blalck music.
James Brown – Say It Loud. I’m Black I’m Proud (1969) – (O cara que transformou o soul em funk ).

Marvin Gaye – Whats Going On (1971)(Um dos discos mais bonitos produzidos na Motown).

Chic – C’est Chic (1978). – (O melhor álbum da era disco).

The Brothers Johnson – Blam ! (1978)(Para provar que se produziu grandes discos de funk durante a era disco).

Tim Maia –  Tim Maia Racional Vol 1 (1975) – Um dos melhores discos do maior artista do soul e do funk nacional.

Baixista Fernando Savaglia

Baixista Fernando Savaglia

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