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Gregory Porter: charme, vozeirão e prazer aos olhos e ouvidos

Veja como foi o show do ganhador do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Vocal 2017

foto: Carol Marinho Martin

Veja como foi o show do ganhador do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Vocal 2017

Passava das 22h da terça-feira, 3.10.2017, quando sobe ao palco do Cine Joia (São Paulo/SP) uma das vozes mais potentes e aveludadas do jazz atual: GREGORY PORTER, cantor, compositor e ator americano. O intuito do show no Brasil era apresentar “Take Me to the Alley”, álbum lançado em 2016 e que premiou Gregory com o segundo Grammy de Melhor Álbum de Jazz Vocal em 2017. Mas o repertório incluiu muitas canções do primeiro álbum dele na tradicional Blue Note Records, “Liquid Spirit” (2013), que lhe rendeu o mesmo Grammy em 2014.

A plateia lotada para ver e ouvir Gregory Porter (Foto: Carol Marinho Martin)

Ainda que sua qualidade vocal e seu porte sedutor bastassem para garantir uma noite memorável, Gregory contou com músicos igualmente distintos para criar o clima intimista e penetrante do show. Acompanhado de Chip Crawford (piano e direção musical), Jahmal Nichols (baixo), Emanuel Harrold (bateria) e Tivon Pennicott (saxofone tenor), Gregory conseguiu com “apenas” 12 músicas emocionar e fazer a platéia vibrar.

Gregory e a banda que o acompanha (Foto: Carol Marinho Martin)

E digo “apenas” entre aspas porque não se trata de um simples apanhado de músicas longas repletas de repetições ou improvisações dos músicos. Trata-se de um repertório que mostra a versatilidade de letras, acordes, ritmos, timbres, intensidades e sonoridades do jazz vocal contemporâneo.

Importante destacar que esses aspectos são atualmente desconhecidos ou inacessíveis ao grande público. Parte dessa “culpa” vem da própria indústria musical que, ao longo do tempo, sacou o jazz de sua origem popular e marginalizada (em grande medida por ser a trilha sonora dos clubes que burlavam a Lei Seca vigente na década de 1920) para posicionar o ritmo num patamar de erudição e privilégio, distante do gosto “inculto” das massas. Reflexo disso é o valor dos ingressos da maioria dos shows de jazz que acontecem no país. Mas vamos a Gregory Porter.

Gregory, um verdadeiro homão da porra (Foto por Carol Marinho Martin)

Na música de abertura do show, Gregory deixa clara sua versatilidade: ele começa com “Holding On”, música que gravou em 2015 com o duo inglês de música eletrônica Disclosure e que regravou numa versão completamente diferente em “Take Me to the Alley”. Compare aqui as duas versões: versão eletrônica de 2015 e versão jazz de 2016.

Ele continua com “On My Way to Harlem” (do álbum “2012) e emenda a música-título do álbum, “Take Me to the Alley”. Com duração de quase 12 minutos, a canção escrita em homenagem a mãe falecida invoca a empatia pelos menos afortunados com frases como “Eu sou seu amigo / Venha para a minha mesa / Descanse aqui no meu jardim / Você terá um perdão”. Visivelmente emocionado, Gregory recria memórias pessoais possíveis de serem apreendidas pelo público por meio de sua voz. Veja o vídeo aqui: Take Me to the Alley – TSC

Gregory e sua capacidade de emocionar com a voz (Foto por Carol Marinho Martin)

Gregory e o saxofonista Tivon Pennicott (Foto por Carol Marinho Martin)

O show prossegue com “Don’t Lose Your Steam” e duas músicas do aclamado álbum “Liquid Spirit”: “Hey Laura” (cujo refrão é cantado em coro pelo público) e a faixa-título. A plateia parece hipnotizada com a voz e a presença de Gregory. Ainda que alguns estejam ao fundo do Cine Joia mexendo em seus celulares, conversando e tirando fotos aleatoriamente, a maioria segue magnetizada com a atmosfera de deleite proporcionada por Gregory e seus excelentes músicos.

A batida vigorosa definida pelas palmas de Gregory e pelo piano e bateria de “Liquid Spirit” entusiasma e abre caminho para “In Fashion”. Gregory revisita seu primeiro álbum,“Water” (2010), com a música “1960 What?”, composta em memória de Martin Luther King e do Movimento Pelos Direitos Civis. Também abre espaço para a improvisação do saxofonista Tivon Pennicott, que mostra a razão de ter colaborado em três álbuns ganhadores do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Vocal (dois com Gregory e um com Esperanza Spalding).

Gregory e a banda que o acompanha (Foto por Carol Marinho Martin)

A última música antes do bis é “Musical Genocide?”, também de “Liquid Spirit”. Curiosamente, a música-protesto fala de finais: a morte do blues e do soul, representada pela vontade de muitos músicos em apenas ganhar dinheiro e fazer sucesso, deixando de lado a “alma” do soul. Ele deixa o palco ovacionado e os músicos saem um a um: primeiro o pianista, seguindo do saxofonista, deixando apenas baixista e baterista no palco.

É o momento em que Jahmal Nichols mostra por que tem nas mãos o instrumento mais importante de uma banda (no caso dele, dois, um elétrico e um acústico). Empunhando seu contrabaixo elétrico com evidente prazer, Jahmal traz à tona a frequência produzida pelo instrumento cujo arranjo dita o ritmo de todas as canções mas que nem sempre é percebido. O riff de “Come Together” dos Beatles empolga a platéia. Ele deixa o palco e Emanuel Harrold dá seu show na bateria.

Emanuel Harrold fecha o show (Foto por Carol Marinho Martin)

Passa da meia noite quando Gregory e os músicos voltam ao palco para o bis com “Papa Was a Rollin’ Stone”, single da banda The Temptations de 1987, e “Work Song”, do Nat Adderley. O show termina com “Free”, música que fala de seus pais e sua trajetória familiar em busca de liberdade. Em tempos de perda de direitos em todas as esferas, recrudescimento da ameaça conservadora e iminência da censura, terminar a noite com um grito de liberdade ora consola, ora desanima. Ainda bem que temos a voz de Gregory Porter para embalar a luta.

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