Entrevistas

Henry Ho mestre das cordas e domínio em técnicas de montagem de palcos

Henry Ho

Entrevista com Henry Ho, fundador da Escola de Luthieria B&H, também é guitartech e roadie, trabalhou para grandes nomes , entre eles BB King e Eric Clapton.

“Passar perrengue faz parte do aprendizado – isso mesmo, é ótimo passar por situações extremas porque só assim que você vai desenvolver ferramentas novas, criar procedimentos mais efetivos e amadurecer!”

Em 1998, quando retornou ao Brasil depois de uma década morando no Japão, Henry Ho fundou a Escola de Luthieria B&H , com seu sócio Marcio Benedetti, sendo a pioneira do gênero no país.

Além de ser um mestre da Lutheria, é também uma daquelas pessoas que estão sempre correndo de um lado para o outro nos palcos enquanto o show não começa. Sempre se certificando de que todos os equipamentos instalados funcionarão durante a apresentação. Quase invisível (sempre usam preto), é determinante para o bom funcionamento de qualquer turnê, seja ela grande ou pequena.

Henry Ho mestre das cordas

Henry Ho mestre das cordas

Henry Ho já trabalhou para nomes de causar inveja a qualquer fã de música: Lenny Kravitz, Dio, Blur, Ramones, Rolling Stones (Ron Wood), The Cardigans, Eric Clapton, Tristania, Hammerfall, Glenn Hughes, Raven, Blind Guardian, Mortification, BB King, Steppenwolf, Hirax, Savatage, Helloween, Justin Bieber, Joe Bonamassa, Ufo, Ozzy Osbourne, entre outros, além de sempre marcar presença nos maiores festivais do país, como por exemplo Rock In Rio e Monsters Of Rock.

Foi colunista das revistas Guitar Player Brasil, Cover Guitarra, Up Gospel, Rock Brigade e Comando Rock, além de escrever para vários sites.

Confira a entrevista cedida por Henry Ho ao site Line Rockers

Quando se iniciou o interesse pela Lutheria, e como surgiu?
Henry Ho: Eu toco guitarra desde os 17 anos e lembro que queria uma regulagem do instrumento bastante peculiar. Sempre recorri ao luthier, mas achei que era melhor aprender. Um domingo tocando numa cidade do interior tive que pegar uma guitarra emprestada – a parte elétrica da minha pifou. E como resolver ou encontrar um profissional nessas circunstâncias? Voltei e na semana seguinte ingressei como aspirante na oficina do Luthier Eduardo Parada Ladessa.

Quais são os principais desafios de um Luthier?
Henry Ho: Nosso dia-a-dia é o desafio. Lidar com vários tipos de instrumentos, músicos e principalmente, com pessoas. Tecnicamente, sempre estamos aprendendo. É necessário estar muito atualizado – principalmente com relação as tendências musicais. E hoje em dia, o principal desafio é se reciclar e manter o estímulo em dia.

O Luthier Henry Ho

O Luthier Henry Ho

Qual a primeira guitarra construída por você? Há alguma em especial?
Henry Ho: Minha primeira guitarra na verdade foram duas, feitas simultaneamente na antiga oficina do Eduardo Ladessa. Uma cópia da Ironbird da marca B.C. Rich, que eu tive que converter de uma foto de revista para o tamanho original. E fiz também uma cópia de uma Ibanez JEM – que copiei de uma Ibanez original, cedida pelo Lúcio Grosmann – hoje, um dos proprietários da Pride Music.

Todas que fiz são especiais. Mas tenho uma comigo, uma strato que sempre foi uma guitarra que deu problemas com pinturas e acabamentos. É algo estranho, nenhuma pintura aderiu a madeira e passou por diversos pintores. Então, decidi deixa-la “envelhecida” de maneira forçada – o processo se chama “relicamento”. E resolveu, hoje é minha guitarra principal.

Quais os grandes nomes da luthieria mundial, na sua opiniãol? Alguém te influenciou?
Henry Ho: John Surh é um luthier que sempre foi uma referência. Tenho um amigo japonês que me influenciou na questão do direcionamento de carreira, Jun Murayama. E sou amigo de muitos luthiers que admiro como: o americano John Cruz, o suíço Patrick Hufschmid, os poloneses Mayones e Ran! Dos brasileiros, gosto do Regis Bonilha – que faz violões com técnicas modernas e tem um senso de design bastante inusitado.

Em 1998, você e seu sócio Marcio Benedetti fundaram a B&H Escola de luthieria, sendo a pioneira dentro do gênero no Brasil. Essa ideia surgiu no Japão, ou sentiu essa necessidade quando retornou?
Henry Ho: Essa idéia surgiu quando voltei do Japão em 1998. Marcio Benedetti e eu trabalhamos juntos na oficina do Eduardo Ladessa. Além da amizade, sempre pensamos em voltar a trabalhar juntos. Fui para o Japão em 1989 e voltei em 1998 – reencontrei o Benedetti e decidimos fazer algo diferente. Foi assim que surgiu a B&H Escola de Luthieria.

Me inspirei nas escolas de luthieria do Japão e mantemos o mesmo formato desde então. Logicamente, cada ano criamos cursos novos, por exemplo: curso de construção de efeitos de guitarras/baixo e um curso rápido de construção de cigarbox.

Além de luthier, você é guitartech e roadie. Isso te abriu portas para trabalhar com os maiores nomes da música mundial. Como se deu o inicio?
Henry Ho: Nossa! Essa é a pergunta que daria um livro! Eu comecei no Brasil carregando instrumentos de percussão para a banda Tarancón, e fiz alguns shows com Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Quando fui para o Japão, trabalhei numa rede de lojas de instrumentos musicais que também produzia guitarras. Fui designado para ajudar no desenho de alguns instrumentos e era eu quem levava as guitarras para os artistas testarem. E nessas circunstâncias, tinha que ser rápido para fazer ajustes, regulagens e adaptações – logo, acabei sendo contratado para ser técnico de guitarra e comecei a trabalhar em shows.

Descreva o dia de trabalho de um Guitar Tech? E de um Roadie?
Henry Ho: Chego cedo, faço o reconhecimento do local e converso com o staff. Descarregamos o equipamento e começamos a definir o layout de palco e o backstage. Faço a checagem do backline (que eventualmente é alugado) e iniciamos a montagem. Desembalamos os itens da banda e iniciamos a manutenção preventiva e a preparação dos instrumentos. Isso envolve: colocar os amplificadores na posição, fazer as conexões dos equipamentos, posicionar efeitos e periféricos. Limpeza dos instrumentos, troca de cordas, ajustes e finalmente, fazer um checkline (testar os equipamentos e iniciar os ajustes de som e de áudio). Muitas vezes, passamos o som. Se banda vier para o soundcheck, ajudamos nos timbres. E terminada a passagem de som, ainda tem muito trabalho de ajuste fino e acabamento de cabos e outras minúcias. Terminada a preparação, um breve descanso e refeição.

Um pouco antes do show, acabamento final, detalhes (toalhas, agua e set-list) e o checkline derradeiro. Showtime é atenção redobrada nas tarefas (trocas de instrumentos, ajustes de equipamentos) e foco no palco para intervir em qualquer tipo de problemas ou surpresa. Terminado o show, a pior parte: desmontagem e embalagem dos itens da banda – costumo fazer de maneira a deixar os equipamentos da banda prontos para o próximo show. E finalmente, despachar e voltar ao hotel para descansar (sem antes tomar uma(s) com a equipe).

Quanto ao roadie, esse termo ainda é relacionado aos ajudantes ou carregadores. E muitos técnicos de cordas ou bateria, também, são chamados de roadies. Eu gosto de ressaltar que somos técnicos de palco que eventualmente, carregamos equipamentos também.

Henry Ho e Kiko Loureiro | Foto para a Guitar Magazine do Japão

Henry Ho e Kiko Loureiro | Foto para a Guitar Magazine do Japão

Você possui o blog Hellbucker (que eu particularmente acho sensacional), onde você dá dicas de luthieria, técnicas de palco, backstage, novidades, entre outras coisas do gênero. Conte-nos mais sobre ele.
Henry Ho: É um canal a qual dou dicas de maneira geral. É nesse blog, por exemplo, que posto algumas ferramentas que criei e muita gente copia para utilizar na estrada ou numa bancada. Sou frequentemente surpreendido por muitos que pedem mais dicas e sugestões. Ultimamente tenho tido pouco tempo para postar mas prometo em breve, colocar a casa em ordem.

Matt McGinn, roadie do guitarrista do Coldplay, Jonny Buckland, relata em seu livro ROADIE, alguns contratempos que teve em sua carreira como, por exemplo, equipamentos falhando em grandes shows. Como contornar situações do gênero?
Henry Ho: Li esse livro (inclusive, gentilmente emprestado por você!). É o pesadelo ou o tipo de situação que entrar em pânico será pior. Imagine um comissário de bordo com semblante assustado e correndo como um louco pelo avião em prantos – é a mesma coisa. Nós técnicos sempre temos um plano “B” e um plano “C”. Por mais que o equipamento esteja em ordem, é necessário contar com um backup. E a melhor maneira de contornar situações do gênero é estar preparado tecnicamente e psicologicamente. Passar perrengue faz parte do aprendizado – isso mesmo, é ótimo passar por situações extremas porque só assim que você vai desenvolver ferramentas novas, criar procedimentos mais efetivos e amadurecer!

Quais as suas dicas e conselhos para quem deseja seguir nas carreiras de luthier, guitar tech e roadie?
Henry Ho: Para quem pensa em seguir nessas carreiras, sugiro cursos e agregar material de todas as fontes possíveis. É o caminho mais rápido. A virtude principal é a paciência – todo início é difícil e complicado. No ramo da luthieria é necessário ser muito mais paciente, e o investimento financeiro é maior. Não se torna luthier tão rápido, e se tem alguma coisa que faz muita diferença, é a experiência! Já no caso do guitartech ou roadie, a dica principal é não se importar em começar com bandas e artistas com pouca estrutura e de orçamento reduzido – nessas condições, o aprendizado é imenso.

Se a intenção é ser um profissional completo: luthier/técnico de palco – não se engane achando que são profissões iguais. Existem muitas similaridades, mas a rotina e a técnica são completamente diferentes. E saber lidar com pessoas vale para ambos os casos – principalmente se as pessoas são os músicos.

Obrigado pela oportunidade!

Acompanhe mais sobre o Henry Ho através dos links:

http://henryho777.blogspot.com.br/
http://hellbucker.blogspot.com.br/
http://bh-luthieria.blogspot.com.br/
http://bhluthieria.com/

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