Entrevistas

Jorge Anielo: Quer conselhos sobre marcas e kits de baterias? É com ele!

Jorge Anielo

A paixão de Jorge Anielo pelo instrumento fez com que, além de tocar, se tornasse um grande colecionador e conhecedor de inúmeras marcas de baterias.

Foto de Julio Alfani

A paixão de Jorge Anielo pelo instrumento fez com que, além de tocar, ele se tornasse um grande colecionador e conhecedor de inúmeras marcas de baterias nacionais e internacionais.

Jorge Anielo é um baterista diferenciado. Além de tocar com maestria, ele tem conhecimento em todo o trâmite de importação e exportação desses instrumentos, já possuiu inúmeras marcas e testou todas elas. Experiência não falta em aconselhar qual o tipo de instrumento para cada ocasião. Fez grandes trabalhos gravando em estúdios e em cima do palco, acompanhando vários artistas. Quer exemplos?

Seguem:

Artistas (Solo):
Beth Guzzo (Sertanejo), Simony (Balão Mágico), Espírito Cigano, Amanda (Trem da Alegria), Luciano Nassyn ( Trem da Alegria), Mato Grosso e Mathias, Beto Barbosa, Adriah Steves (Compositor), Fernando Bustamante Project (Banda Zero), Renato Jao (pop-Eldorado Discos), Jorge Anielo Trio (Instrumental), Time’s Up (Instrumental), Cimbas e Cia (Tuti Frutti), Marcinho Eiras (solo-Prog do Faustão), Pepe Rodrigues (Produtor), Sérgio Cafa (Sá & Guarabira), Thiago do Espírito Santo (Instrumental), Joe Mogrhaby (Prof.Souza Lima), Lyba Serra (Vocal.Prof.Souza Lima), Tadeu Dias (Guitarrista Wilson Simoninha), Banda classe (Pop Funk), Paula Lima (Funk)”Banda Classe”, Jairzinho de Oliveira (MPB) Jingles, Wilson Simoninha (MPB) Jingles, Luciana Mello (Pop) Jingles, Bocato ( Instrumental), George Freire (Instrumentel), Cabaret Eletrônico (Instrumental), Afonso Nigro ( Carreira solo), Leo Maia (Filho Tim Maia), Silvia Malammzu (Madonna Cover), Rude Sarzo (Whitesnake), Ana Marcondes (MPB), Roberta Miranda (Sertanejo), Banda Bross (POP), RT(Autoral), Steve Augeri (Ex-Journey), Rumba Mosaique (Gipsy Kings Cover e Pop Latino) e Schizophunk (Autoral).

tocando com Afonso Nigro

tocando com Afonso Nigro

Bandas covers:
Esquadrão Classe A (Classic Pop 80’s), Startrackers (Pop Rock), Mr. Kurk (Classic Rock), Banda Princesa Isabel (Axe Music), Negroovera (pop), Rock’n Hits (Rock), Kaleidoscope (Classic Rock), Soul Light (pop), AI-5 (Classic Rock), Funkadaria (pop), Junkie Box (Pop Rock), Jungle Funk (Disco), Mr. Big Cover (Hard Rock), Scorpions Cover (Hard Rock), The Classics (Classic Rock-Jo Soares), Black Dog (Beatles & Led Zeppelin Tribute), Black Diamond ( Hard Rock), Hollywood Hits (Trilhas da Hollywood Souza Cruz), Bubbles (pop), New Jersey ( Bon Jovi Tribute), Evil Eyes (Ronie James Dio Tribute), Esquedão Classe A (Classic Pop 80’s), Startrackers (Pop Rock), Mr. Kurk (Classic Rock), Banda Latin Lovers (Pop Latino), Cuarteto Malecon (Salsa POP Latino), Banda Mustang 68 (Classic Rock), Beto Luck e Banda Vibezz.

Jorge Anielo concedeu uma entrevista exclusiva ao Line Rockers. Confira:

Como surgiu seu interesse pela música?
Jorge Anielo: Nos anos 70, quando nasci. Para ser mais exato em 73. Tive a sorte de ser da época da disco music e de muitas músicas nacionais de qualidade também, pois a MPB nunca esteve tão em evidência quanto naquela época. Por influência da minha mãe, ouvi muito Michael Jackson, Billy Paul, Marvin Gaye, Diana Ross, entre muitos outros. Ela colocava os LPs para tocar e ficava dançando comigo no colo.

Da parte do meu pai, veio a influência da música latina, boleros, Chá-Chá-Chá e samba do tipo Martinho da Vila, Alcione, e por aí vai. Meu pai também tocava percussão e cantava (samba), então sempre estive em um ambiente musical com qualidade. Mesmo se eu não me tornasse um músico, seria um bom ouvinte por sempre ter vivido rodeado por boa música.

Nos anos 80, as coisas começaram a esquentar. Lembro de um namorado da minha tia aparecer em casa com o álbum “Back in Black” do AC/DC, isso por volta de 82, e aquele som me deixou estarrecido aos 9 anos de idade. Logo depois, ganhei da minha tia uma fita K7 do “Led Zeppelin IV” e eu não tinha ideia do que era aquilo, mas me fazia “pulsar” e querer ouvir cada vez mais. Mal sabia, mas já havia sido picado pelo bichinho da música e do rock´n roll. 1983 foi um ano “divisor de águas” em minha vida, pois foi quando o Kiss veio para o Brasil. Quando assisti pela TV, pirei! Até então eu nunca havia visto nada igual, mal sabia quem eram os caras, quais eram “os rostos” daquele som que me fazia ficar doido. Não tinha YouTube naquela época (risos), só as capas de LPs e K7s. Fazia minha mãe comprar posters, LPs, camisetas, tudo relacionado ao Kiss, claro, dentro das possibilidades financeiras dela. Infelizmente não pude ir ao show por ser muito novo, pois eu tinha 10 anos na época e a censura era de 14 anos, se não me engano. Esse foi o início de tudo!

primeira apresentação na Unesp aos 16 anos

primeira apresentação na Unesp aos 16 anos

A bateria foi a sua primeira e única opção? Quais nomes te influenciaram na época?
Jorge Anielo: Sim, a bateria sempre foi a minha primeira opção. Em 85, eu e todos da minha geração tivemos um choque com o primeiro Rock in Rio. Ali eu tive certeza que queria ser um baterista, pois a paixão foi imediata pelo instrumento. Nunca tive olhos para qualquer outro que não fosse a bateria, até achava guitarra legal, mas a bateria me deixou completamente apaixonado.

Não tinha a menor ideia de quem eram as bandas ou como se chamavam os músicos até eu começar a colecionar um álbum chamado RockStamp, aí sim, comecei a saber os nomes das bandas e de alguns integrantes. Lembro disso como se fosse hoje, ir nas bancas comprar figurinhas para completar o álbum. Eu pirava nas capas dos LPs e nas fotos das bandas, enfim, pude ver outras faces do mesmo rock´n roll… que sorte! Minhas influências na época, embora não soubesse seus nomes, foram: Cozy Powell, Tommy Aldridge, Tommy Lee, Eric Carr, Rick Allen, Roger Taylor, Ian Paice, John Bonham, enfim, todos os bateristas daquela época.

Como se deu o seu início com bandas?
Jorge Anielo: Eu tenho um amigo que na época trabalhava em uma loja de discos do pai. Ele também era baterista e quando eu chegava da escola, deixava o material em casa e corria para a loja, todos os dias, para ficar ouvindo os LPs por horas e ficarmos falando sobre as lendas do rock. De certa forma, eu e a bateria já tínhamos um lance de paixão, mas não tínhamos sido apresentados oficialmente até então. Foi quando o Marco, esse meu amigo, me chamou para ir ao ensaio da banda dele. Fui e assisti até o fim.

Quando cheguei perto de uma bateria de verdade, coisa que até então era por foto ou TV, tive um treco, tipo paixão mesmo. Fiquei gelado e não parava de olhar para ela, e o Marco disse: “Senta aí e toca!” e eu disse gaguejando: “Mas eu nunca toquei antes!”, então o guitarrista começou a tocar “Smoke on the Water”, o mundo parou e, respirei fundo, fechei os olhos e comecei a tocar… parecia mágica, toquei até o final e todos ficaram de boca aberta, pois não esperavam, e nem eu esperava que isso fosse acontecer (risos). Foi um dia inesquecível, o meu primeiro contato com ela, minha paixão: a bateria.

Depois disso ganhei a minha primeira bateria e as bandas foram aparecendo, “um amigo do amigo do amigo” que tocava guitarra e que precisava de baterista acabou me chamando e, como sempre, estava disponível para toda e qualquer banda. Minha primeira banda profissional foi em 87/88, digo profissional porque tocávamos em bares e tínhamos cachê, era bem legal. Ensaiávamos todos os sábados nos fundos de uma igreja em São Caetano. Religiosamente estávamos lá, sempre ás 10hs da manhã. Foi uma fase muito bacana, aprendi tudo com eles e na raça, sem aulas de bateria, mas isso é uma outra história.

Jorge e sua Caramuru toda reformada por ele

Jorge e sua Caramuru reformada por ele

Você já tocou com diversos músicos conhecidos no cenário musical. Cite alguns deles e houve algum que tenha te marcado mais de alguma forma?
Jorge Anielo: Toquei com o Bocato, Roberta Miranda, Simony, Beth Guzzo, Espírito Cigano, Paula Lima e Seu Jorge (bem no comecinho da carreira deles, Paula e S.Jorge), gravei muito no estúdio da S de Samba com o Jair de Oliveira (Jairzinho), Wilson Simoninha, Luciana Mello, entre tantos outros.

Todos de certa forma tiveram seu espaço e marcaram a minha carreira musical, mas posso citar dois nomes em especial: Rudy Sarzo (Ozzy, Quiot Riot, Whitesnake,…) e Steve Augeri (Journey). Com o Sarzo foi algo inusitado, pois estava eu em uma ExpoMusic passeando, quando ouvi rumores que o baixista do Ozzy estava tocando em um stand. Corri até lá e estavam todos os músicos, amigos meus inclusive, esperando um batera que não chegava, logo, o meu amigo Wanderson Bersani, hoje coordenador do IG&T, me chamou e me sentei na bateria. Começamos a tocar e foi algo incrível, totalmente inesperado e mágico.

em show com Steve Augeri

em show com Steve Augeri

Com o Steve Augeri foi algo programado. Fui convidado pelo meu amigo BJ (que toca hoje na banda do Jeff Scott Soto) a fazer parte da banda que acompanharia o cantor em dois shows (São Paulo e Brasília) junto com o Richie Kotzen e Kip Winger. Os ensaios e os shows foram uma novidade absurda para mim, pois nunca havia tocado com um grande artista internacional e é muito bom aprender com esses caras, saber como eles trabalham. A dinâmica, os andamentos são todos muito lentos, bem difícil no começo, mas um aprendizado muito bacana.

Você toca/tocou em diversas bandas covers e bandas com sons autorais. Há alguma preferência entre as duas opções? As de covers sempre agregam mais público?
Jorge Anielo: Sim, toquei com algumas bandas autorais e bandas covers e não há, de minha parte, uma preferência, e sim uma certa distinção. Ambas são importantes para a carreira e trabalho de um músico, mas cover e alguns outros que você não pode criar, é simplesmente ouvir o que está no CD e reproduzir, isso é trabalho. Trabalho de modo algum menos importante ou de fácil execução, mas é trabalho, você paga as contas e sobrevive disso.

Carreira, defina carreira: é o que leva seu nome em primeiro lugar. É o que você constrói com os seus projetos autorais de criação, composição e todo e qualquer modo que contribua na elaboração da música em si, ou aulas e workshops.

É uma linha muito tênue que separa a distinção que faço sobre carreira e trabalho. Posso muito bem galgar uma “carreira” de uma vida toda tocando músicas que não são minhas e somente reproduzindo, mas “eu” particularmente defino isso como trabalho, pois nunca serei lembrado por ser o cara que tocou igual ao fulano no disco tal, entende? Releituras e rearranjar as músicas, talvez seja mais voltado a “carreira” do que simplesmente tocá-las em sua origem, como eu disse: muito tênue essa distinção. Essa busca pelo individual não é uma característica forte na música brasileira hoje em dia, infelizmente, não há muito espaço para as novas ideias no grande mercado. Como disse um amigo, em um post escrito por mim no Facebook: “se eu fosse tocar música própria, eu morreria de fome!”, e ele tem razão, por isso chamo o cover de trabalho.

Toda e qualquer composição autoral precisa de investimento e ás vezes por não ter essa parte tão importante, alguns músicos talentosos deixam de produzir e compor. Acho isso uma pena, mas cada um sabe onde o calo aperta, manja?

Em relação ao público, vejo hoje uma certa acomodação. Pessoas saem de casa para ouvir “rádio ao vivo” e ficam pedindo sempre as mesmas, claro, boas mas “velhas” músicas. O famoso, toca “fá fá fá”,” Bór tu bí uaiudi” e o não menos famoso, “TOCA RAUL!”.

Nos anos 80 tínhamos uma enxurrada de bandas autorais em todos os segmentos: rock, pop, instrumental,… todos! Tinha o Teatro Mambembe, todas as bandas da cena do metal tocavam lá, também a DAMASHOCK, Aeroanta,… no Rio tinha o Circo Voador. Todos os lugares em que se apresentavam bandas autorais, a maioria dessas casas fecharam e isso se perdeu infelizmente. O público que lotava casas com som autoral se dispersou, ou casaram, tiveram filhos, ficaram mais velhos, não saem mais ou saem muito pouco de seus lugares e o público que lota os bares, de uma maneira geral, é uma ou duas gerações mais nova que a minha. E “ainda bem” que essa galera mais jovem lota alguns pubs e casas de shows, senão eu estaria desempregado. Mas todos querendo ouvir o que toca nas rádios.Automaticamente, hoje os covers agregam mais público sim.

Existe hoje um segmento de bandas autorais alternativas que se sustentam muito bem, mesmo que aos trancos e aos barrancos com a sua arte. Mas sempre de um modo underground, alternativo em festivais e projetos voltados para esse segmento. Não estou muito por dentro desse estilo, não me identifico, mas tenho que admitir que ainda tem uma semente autoral tentando sobreviver em meio ao caos (risos).

Móveis Coloniais de Acaju seria um exemplo dessas bandas.

com BJ no Hollywood Hits

com BJ no Hollywood Hits

Também foi colunista e transcritor de revistas importantes, entre elas a Modern Drummer. Como surgiram os convites e qual foi a importância dessa fase para o seu trabalho?
Jorge Anielo: A primeira revista para quem eu escrevi foi a BATERA, sendo um dos transcritores talvez em 97, não me lembro bem. Eu peguei algumas transcrições que fiz e levei na redação da revista. Me apresentei, deixei o material e logo após fui contratado. Fiquei alguns anos escrevendo e depois passei a ser colunista também. Foi uma experiência muito bacana, pois pude colocar em dia minha escrita e leitura musical com as transcrições. Na parte das colunas, pude explorar mais minha criatividade em abordar vários assuntos e um deles era o Ostinato, adorava escrever sobre esse assunto.

Escrever para a Modern Drummer foi muito legal, quem não gostaria de escrever para uma das mais famosas revistas de bateria do mundo? Foi fantástico, fiz agumas transcrições também e algumas matérias, isso tudo manteve meu nome em evidência e claro, cada trabalho realizado era uma satisfação. Sou ainda reconhecido por esses trabalhos, quase 20 anos depois.

E a criação e gravação de jingles para comerciais de TV e rádio? Fale mais sobre esse trabalho e como tudo isso começou? Quais foram os mais importantes?
Jorge Anielo: Eu fiz a minha primeira gravação profissional em 95, com a banda Espirito Cigano, na época produzido por um cara que não me lembro o nome agora, mas ele era guitarrista da banda do Fábio Jr. Foi um trabalho muito gratificante e foi aí que despertou essa minha paixão por querer ser um músico de estúdio. Eu estava lendo muito bem e sempre tive facilidades para trabalhar com metrônomo (click).

Lembro como se fosse hoje, o produtor me perguntou se eu já tinha gravado antes e eu disse que não, era minha primeira vez e ele elogiou, disse: “Olha garoto, você poderia investir nisso, você grava muito bem!”, agradeci e tudo começou dessa gravação. Na mesma época eu tocava na banda da cantora Simony (uma das melhores cantoras que já trabalhei, um talento e uma voz sem igual) e na banda tocava comigo o tecladista Fernando Bustamente, que até hoje produz e grava trilhas. Comecei gravando alguns trabalhos com ele, mas foi em 2001 que tive o convite do produtor da S de Samba, Dimi Kireff. Fomos gravar uma demo do Grupo Classe (quarteto vocal feminino), trabalho muito bacana e que tive muito prazer em fazê-lo. Ao término da gravação, o Felipe me perguntou se eu queria gravar uma “publiça” e respondi, claro, só se for agora(risos). Gravei e sempre que pintava trabalho eles me chamavam. Gravei jingles para marcas bem famosas como: DOVE, Collynos, Coca-Cola, Nissan, Chevrolet, Kibon e muitos outros. Pena eu não ter conseguido cópia de todos, mas alguns eu tenho e estão em meu souncloud.

com a banda de som latino Espírito Cigano

com a banda de som latino Espírito Cigano

Você é um grande nome dentre os bateristas de estúdio no Brasil. Geralmente o músico de estúdio agrega mais opções de estilos pela diversidade musical cotidiana. Há os seus estilos preferidos em tocar, ou qualquer estilo é bem aceito? Há restrições de escolha?
Jorge Anielo: Sei que estou longe de ser um “ícone” nesse mercado como outros colegas mais presentes, mas dei minha importante parcela de contribuição. O sucesso de todo e qualquer músico de estudio está em ser versátil e quanto mais estilos tocar, mais vai gravar. Temos bateristas incríveis em vários segmentos no Brasil e alguns costumam ser específicos.

O cara do samba, grava tudo de samba, o cara do sertanejo grava tudo de sertanejo e assim vai. Acho válido, mesmo porque não temos tantos artistas pop como nos EUA e Europa por exemplo, somos mais segmentados. Particularmente eu prefiro gravar produções de publicidade, artistas pop, rock, soul, funk, r&b, latino (música, não o cantor, pelamorrrrr…rsrs), country, alguns segmentos de sertanejo raiz e música brasileira (MPB). Me dou por satisfeito nessa classificação. Não tenho nada contra outros estilos, simplesmente acho que não faz parte da minha linguagem, gravar sertanejo universitário por exemplo, entende?!!!

pausa para as redes sociais

pausa para as redes sociais

Você foi trabalhar com importação de instrumentos musicais e isso com certeza aprimorou o seu conhecimento, não só em instrumentos, mas em todo o trâmite de importação e exportação deles. O que esse trabalho representou para a sua carreira?
Jorge Anielo: Abriu muitas portas e acima de tudo me deu a oportunidade de conhecer o mercado de instrumentos musicais no brasil. Trabalhei na área comercial, mas fui também, direta e indiretamente, especialista de produtos das marcas que vendia, pois na parte de bateria e pratos, eu era o único que tocava com propriedade o instrumento e não como entusiasta.

Eu aprendi como funciona o trâmite de importação, taxas, impostos, legislação, frete, enfim muitas coisas que você só aprende estando do lado de dentro. Trazendo essa experiência para o meu mundo como músico, aprendi como se deve abordar uma empresa na hora de negociar um patrocínio, como se deve agir antes de depois de um sim e principalmente depois de um não. Em uma das empresas que trabalhei, eu fazia a “contratação de novos artistas” para uma marca famosa de baterias e justamente por estar do lado de quem analisa tal possibilidade, pude provar a experiência em julgar quem teria ou não qualificações para estar no casting da marca. Posição difícil, mas me ensinou muito. Hoje vejo o mercado musical de todos os ângulos e formas e não só de trás do meu instrumento, como a maioria ainda vê. Infelizmente!

Poderia te classificar como um dos maiores colecionadores, se não o maior colecionador de baterias do país? Já testou praticamente todas as marcas do mercado. De onde partiu esse interesse em testá-las e colecioná-las?
Jorge Anielo: Não sou o maior porque não tenho todas as baterias em meu poder, se tivesse, precisaria de um galpão, pois tive mais de 60 kits, não sei a quantidade de ferragens, caixas, tampouco de todos os pratos que tive, mas posso dizer que todas as marcas que gosto passaram pelas minhas mãos.

SONOR, TAMA, LUDWIG, PEARL, GRETSCH, YAMAHA, REMO, PREMIER, SABIAN, ZILDJIAN, DDRUM, 2BOX, SIMMONS, PAISTE, UFIP, MEINL, DREAM CYMBALS, SUPERNATURALS CYMBALS, AVATAR,KASHMYR, STAGG fora as de fabricantes brasileiros, GOPE, PINGUIM, LUTHIER, SAEMA, AEROSOM, TAIKO, CARAMURU, REVOLUTION DRUMS, FISCHER, PRIMOR, ZILTANANN, pela lista de marcas dá para ter uma ideia da quantidade de coisas.

Tudo começou por acaso em 2005, quando iniciei meus trabalhos na importadora. Eu tinha vendido tudo o que tinha de bateria, resolvi dar um tempo e acabei ficando com um pedal e um par de baquetas. Conforme o tempo foi passando e fui tendo acesso as marcas que vendia, acabei comprando uma bateria, aí um amigo me ofereceu outra e assim foi até eu chegar a soma de 23 kits de baterias de uma só vez. Nunca tive a intenção de ser colecionador, aconteceu. Eu mal podia andar no estúdio e foi aí que resolvi comercializar algumas. Até hoje compro e vendo baterias usadas, reformo, faço manutenção nas minhas e para alguns clientes. O que era um divertimento, acabou virando fonte de renda e de conhecimento. Faço questão de salientar que todos os kits que passaram por mim eu levei para shows, fiz gravações, explorei ao máximo cada um deles com o intuito de saber do que se trava e o que cada um poderia me oferecer em determinadas situações.

Quantas baterias são em sua coleção atualmente? Pretende aumentar?
Jorge Anielo: Hoje, bem mais modesto, estou resumindo para uma única marca que é a de coração: Sonor. Tenho uma Yamaha 900 e uma Ludwig 70, o que para quem já teve 23 ao mesmo tempo, é algo bem modesto (risos). Não pretendo aumentar, talvez um ou outro modelo que não tive, tipo Noble&Coley, Braddy e Ayote, mas isso deixo para um futuro próximo, não sei ao certo. A única coleção que eu gostaria de aumentar é a das baterias eletrônicas, sou apaixonado por uma marca inglesa ícone nos anos 80 chamada Simmons. Essa sim eu coleciono e procuro por módulos, pads e tudo ligado a essa marca. É minha realização ter essas relíquias.

com a sua bateria Ludwig

com a sua bateria Ludwig

Isso o torna uma pessoa experiente para aconselhar marcas e kits de baterias não só aos iniciantes, como aos mais experientes também. Há muita procura por essa ajuda? Como funciona esse trabalho?
Jorge Anielo: Sou muito procurado e respeitado por esses conhecimentos, sou grato à todos por isso e tento ajudar como posso, mas não deixando de lembrar que isso custa dinheiro e não aprendi tudo isso de graça. Foram anos e anos de pesquisa, carregando coisas de um lado para o outro, desmontando e montando kits, ferragens, caixas… eu acabo filtrando um pouco, vejo que existe uma preguiça em pesquisar e conhecer, querem tudo pronto e respondido magicamente. Acho que faz parte do “educar”, estimular a pessoa a pensar e questionar sozinha as coisas. Não é porque eu falei que é bom e sim porque você acha que é bom, entende?

Hoje vivemos em uma época onde tudo e qualquer coisa está a apenas um click de mouse de distância e mesmo assim tem gente que prefere perguntar. Para quem quer trocar informações, tenho o maior prazer em ajudar e ser ajudado, mas para quem só quer perguntar sem dar nada em troca, para esses eu cobro por hora. Eu faço um tipo de trabalho que aqui é pouco explorado, mas nos EUA é muito usado, que é o de Drumtech. O que é ser drumtech? É roadie? Ser drum tech é o cara que cuida do instrumento, seja para um artista específico ou para vários. No meu caso, consiste em alugar uma bateria, seja para uma gravação ou show, montar, afinar e deixar a bateria pronta para o músico executar seu trabalho. Tenho sido procurado por isso, não com tanta frequência, mas tenho feito bons trabalhos nessa área. Acho muito bacana e me espelho na Drum Doctors USA, talvez um dia eu vá até lá bater na porta e pedir um emprego (risos).

Há baterias que são recomendadas para cada tipo de som ou isso é irrelevante?
Jorge Anielo: Sim, cada tipo de sonoridade é característica específica de uma bateria. Sei que depois do material gravado, masterizado e pronto para ser ouvido, é bem difícil dizer qual instrumento foi usado. Em alguns casos isso é bem nítido e claro, já em outros, nem tanto. Em um geral, existe uma procura por baterias vintage, essas são as mais desejadas nas gravações atuais.

E para você, qual a melhor marca do mercado, ou se for mais fácil de responder, quais as melhores marcas?
Jorge Anielo: Eu costumo dizer que é como perguntar ao pai qual dos filhos é o mais bonito. Tenho carinho por todas as marcas que tive e é bem difícil escolher uma apenas. Tenho 3 marcas que levo comigo para sempre: SONOR, LUDWIG e YAMAHA, BATERIAS. Pratos Zildjian e peles Aquarian. São de minha predileção, não significa que outras não sejam boas, só questão de gosto e identificação pessoal.

Jorge Anielo

Também podemos incluir a produção musical no seu curriculo, não? O que anda produzindo atualmente?
Jorge Anielo: Por ter gravado muito, sempre estive ligado em como os produtores tocam seus trabalhos e sempre fui um cara antenado em como me gravar. Conhecimento de microfones, mesas, prés e todo o aparato de um estúdio de gravação sempre me cativou. Tenho meu home studio e gravo trilhas de bateria em casa para alguns produtores, pois se tornou caro gravar bateria e quem tem essa possibilidade aumenta a demanda. Estou produzindo a banda Tribal, são velhos amigos de mais de 25 anos, inclusive já toquei bateria com a banda há alguns anos e hoje estamos gravando um material. É uma experiência nova de desafiadora. Sempre fui acostumado a trabalhar com bons produtores e hoje tento desbravar esse caminho. Estou muito empolgado e confiante.

Além disso tudo, você leciona nas escolas Batera Beat de Pinheiros, Lado B no Anália Franco e ministra aulas particulares em seu próprio estúdio. Qual o método aplicado por você?
Jorge Anielo: No Bateras Beat temos a grade da escola, galgada em módulos e muito bem elaborada pela direção da escola. Seguimos esses módulos e temos ótimos resultados, claro que cada professor tem sua forma de ensino, mas sempre dentro desse conteúdo estipulado.

Na Escola Lado B temos uma apostila muito bacana e está em andamento um novo material didático, galgado em módulos também, mas temos um pouco mais de liberdade em aplicar alguns outros livros como apoio, desde que sempre seja seguido a grade da escola. Em aulas particulares eu uso vários métodos já famosos e também meus anos de experiência como baterista profissional e professor de bateria, pois o perfil de quem vem estudar comigo é de um cara que já toca e quer uma informação específica ou está em busca de lapidar e enriquecer seu conhecimento. São perfis completamente distintos.

Em 2001 gravei uma vídeo aula e escrevi o método Teoria Aplicada, voltado para os níveis de iniciantes e intermediários. Sempre dou uma passada em alguns capítulos dele com alunos que estudam comigo em particular. Mas o resumo de todos os métodos é colocar o aluno para tocar sempre e visar a prática e motivação das aulas.

o seu método de bateria

o seu método de bateria

Se pudesse escolher um baterista para fazer um dueto, quem seria? Por quê?
Jorge Anielo: Sem sombra de dúvidas o Jeff Porcaro. Porque me identifico muito com a linguagem dele e seria emocionante poder estar perto de um cara que admiro tanto,mas que infelizmente não será possível, mas se eu pudesse escolher apenas um, seria ele. O segundo da lista seria John “JR” Robinson, esse sim, um dia terei o prazer de conhecer.

Como você avalia o cenário musical atual?
Jorge Anielo: A música vem mudando já há alguns anos, e isso me preocupa. Vejo que não existe mais aquele artista ou banda que te tira o fôlego, que te prende e te faz ouvir um disco inteiro. Hoje vivemos uma época muito imediatista, ouvimos singles, mp3, plataformas digitais, enfim, temos todas as ferramentas que poderiam fazer uma verdadeira revolução na música em todos os sentidos, mas não, estamos alienados e cada vez menos pensantes. Não sou muito otimista quanto ao cenário atual, espero que algo bom surja em breve e que novos compositores comecem a mostrar suas músicas e que a velha paixão por obras completas seja um novo horizonte. Talvez seja apenas um sonho, ou não, quem sabe?! Quanto ao cenário atual no Brasil, prefiro nem comentar, é o CAOS, estamos completamente perdidos.

Quais os seus planos futuros? Há algo que ainda pretende realizar na sua área que ainda não tenha tentado?
Jorge Anielo: Acredito que investir em algo autoral seria uma preocupação imediata, criar, produzir um material novo, algo que sempre deixei para segundo plano até então. Tive trabalhos autorais em outras épocas e que não foram para frente, infelizmente, mas agora tenho olhos voltados para isso. Tenho um material em andamento, composições e releituras e em breve teremos novidades. Tocar fora do Brasil é uma coisa que quero fazer o mais rápido possível. Tenho essa lacuna aberta em minha carreira e quero supri-la o quanto antes. Voltar a me apresentar em grandes palcos e para um público maior também é uma pretensão e espero colocar em prática ainda esse ano.

E para finalizar, quais os conselhos para os futuros e atuais bateristas brasileiros?
Jorge Anielo: Invista em sua carreira, estude, “PAGUE” bons professores e não se deixe levar por cursos rápidos e milagrosos de tocar bem em apenas “5 minutos” (isso não existe, é mentira!) não estude com professores desqualificados. Estude muito seu “instrumento”, lembre-se que se chama instrumento, ele não toca sozinho, seja de qual marca for, você é quem faz a diferença. Sempre pensando em música, “BATERIA NÃO FOI CRIADA PRA SOLO” ISSO É SÓ UMA FERRAMENTA!

Pratique todos os dias, toque com quantas bandas puder, faça sua história, saia do quarto e vá para a rua tocar. Toque para a banda, some com outros músicos, você não está sozinho em cima do palco (atacante fominha não faz gol). Tocar se faz de prática e não de teoria, mas leia música, escreva música, busque conhecimento pesquisando, questionando sempre, temos as melhores ferramentas ao nosso dispor, é só saber usar. Seja o melhor no que for fazer. Conheça sua raiz, as músicas do seu país e da sua cultura, estude e toque a maior quantidade de ritmos que puder. Seja autêntico, seja profissional, focado, íntegro, não se atrase, faça sempre o melhor que puder. Faça tudo isso 20 vezes ao dia como se não houvesse amanhã.

“Sorte não existe, existe suor na cara e bolhas nas mãos”

“Uma pessoa de sucesso faz todos os dias o que pessoas normais jamais fariam”

Boa sorte galera!

Jorge Anielo

Jorge Anielo

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