Entrevistas

Juliana Mello: Uma multitarefada no showbusiness brasileiro…

foto de Helena Martins

“O profissional de verdade faz show, evento, casamento, aniversário, velório, feira, corporativo, grande, pequeno, de todos os estilos musicais”

Juliana Mello é produtora de shows e eventos com uma década de experiência e foco em logística artística. Hoje, atua como gestora de conteúdo dos cursos da On Stage Lab e trabalha como freelancer em shows internacionais e eventos corporativos. É formada em jornalismo e já trabalhou produzindo grandes eventos e shows nacionais e internacionais, além de atuar como colaboradora em festivais e outros projetos que envolvem música. Como jornalista, participou da cobertura de mais de 100 shows e eventos ao longo da carreira. Entre os shows e festivais em que já trabalhou estão Motörhead, Scorpions, Symphony-X, Coal Chamber, Lady Gaga, Planeta Terra, Natura Nós, Maquinária, SWU, Lollapalooza, Xxxperience, Muse, New Kids on The Block, Simple Plan, The Vaccines, Sky Ferreira, entre muitos outros.

Confira a entrevista de Juliana Mello para o Line Rockers:

Como começou a sua trajetória no meio musical?
Eu acho que começou desde pequena. Meus pais sempre ouviram muita música em casa, e desde criança eu ouço todo o tipo de música: de Beatles à Raul Seixas. Minha mãe era muito fã de John Lennon, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Queen. Meu pai já curtia um Luiz Gonzaga, Deep Purple, BB King… E cresci com vinis desses nomes e, aos poucos, fui descobrindo o heavy metal como “minha praia”… O que não me fez parar de ouvir outros estilos musicais. No início da adolescência, eu era absolutamente obcecada por dois artistas: Iron Maiden e Bon Jovi, sempre tive tudo deles. E quando comecei a comprar VHS de shows foi que comecei a me encantar pelo mundo de produção. Quando menina, eu queria ser cantora mas, no fundo (e por saber que eu sou péssima cantando), eu sempre quis estar atrás do palco.

No Rock in Rio 2001, quando entregou o disco de ouro para o Maiden, na volta do Bruce Dickson para o grupo

A música contribuiu em sua escolha pelo jornalismo?
Em parte, sim. Eu sempre tive um “plano A” e um “plano B”, o que não é bem uma coisa de ariana, mas sim de educação de pai virginiano, né? Eu sou apaixonada por política, sempre fui. Me formei em jornalismo com ênfase na área de ciência política, mas sempre acompanhei muito de perto jornalismo cultural / de entretenimento. Na época de colégio técnico, que era voltado pra essa área cultural, eu achava que podia contribuir pra indústria da música como hobby. Quando pisei na faculdade a primeira vez, o país estava fervilhando com o final do governo FHC e eleição do Lula, então aquilo tudo me fascinou ao ponto de, até hoje, eu assistir comissões na TV Senado e na TV Câmara como quem acompanha novela das 20h. O plano A era ir pra Brasília virar comentarista política. Mas muita coisa nesse meio me desapontou e, por isso, usei o plano B, que era viver de música, e hoje não me imagino sem. Sempre digo que se me tirarem isso, é como se tivessem me arrancando um braço, uma perna, um órgão vital.

Como foi o processo de efetivação da sua carreira? Quais foram as etapas?
Preciso voltar um pouco no tempo pra explicar isso. Quando eu era moleca, eu participei de um concurso na Rock Brigade pra almoçar com o Bruce Dickinson. Mandei exatas 4632 cartas e, lógico, eu acabei ganhando a promoção e foi quando eu conheci a Fabiana Lian, que na época estava com o Bruce na turnê que culminou no show do Skol Rock em São Paulo. Perguntei pra ela como eu podia trabalhar na área e ela me mandou crescer primeiro, rs. Anos mais tarde, eu já trabalhava em uma gravadora cuidando de assessoria de imprensa quando migrei para a área de shows; comecei fazendo listas (convidados, imprensa) e fui indo pra trás dos palcos aos poucos, ora pra ajudar a recolher coisas de camarim, ora pra ajudar numa tradução ou outra. Quando vi, estava trabalhando com um promotor e daí pra frente, fui me enfiando cada vez mais no artístico, que é uma das minhaa áreas de atuação hoje. Mas essa transição aconteceu aos poucos – das listas pra produção executiva foi quase uma década. É um mercado que o profissional vai ganhando a confiança dos contratantes aos poucos, e eu tive essa paciência.

Algumas das credenciais dos inúmeros trabalhos realizados

Quem foram as pessoas que mais te influenciaram e apoiaram nessa jornada?
Tive várias pessoas, mas acho que as que me ensinaram muito foram o Paulo Baron, meu mentor na Top Link Music, a Fabiana Lian, que é minha “mãe” até hoje no mercado e sempre me recomendou muito bem – incluindo meu job em O Rei Leão, um dos meus jobs favoritos até hoje; o Peu Guimarães, com quem trabalhei na Enjoy e fiz muitos freelas ao longo dos anos, e a Bianca Freitas, que infelizmente faleceu no ano passado e foi uma das minhas melhores amigas na vida. Inclusive, num momento delicado na minha carreira, foi ela quem me chamou pra perto e fez essa curadoria profissional. Foi ela que me recomendou para várias posições que ocupei: Via Funchal, Natura Nós, Maquinaria Festival, além de várias turnês. A Bianca foi a pessoa mais próxima e que mais acreditou no meu potencial, e ela foi uma das grandes responsáveis por desenvolver minhas habilidades atuais.

Qual foi o primeiro grupo/artista para quem trabalhou? Como foi a experiência?
O primeiro show inteiro que eu fiz foi um aniversário da Kiss FM. Foi minha primeira experiência e foi linda e dolorosa! Cometi muitos erros de principiante, mas tive o amparo do meu chefe na época e aprendi que precisava ter raciocínio rápido, resistência física e mental e jogo de cintura logo ali, naquele primeiro trabalho. Os artistas eram muito amáveis e compreensivos comigo, mas fiquei em várias situações complicadas por ser meu primeiro trabalho como produtora.

com Geoff Tate no Monsters of Rock (foto de Rafael Beck)

Produtora executiva, departamento artístico, tour management, direção de arte, coordenadora de eventos, relações-públicas, jornalismo e tradução. Fale um pouco de cada atividade. Qual a parte preferida e qual a mais desgastante disso tudo? Por qual razão?
Acho que todas as atividades são gratificantes, possuem seus próprios pontos de stress e pontos de prazer em desenvolver. Eu tenho uma facilidade muito grande em todas elas porque gosto muito de fazer. Algumas são mais complicadas, lógico: produção executiva requer um nível extra de dedicação e atenção aos detalhes, porque estamos lidando com o dinheiro do contratante e com o sucesso ou o fracasso da experiência final do fã. Para artístico, é preciso paciência e uma dose extra de cafeína para conversar com os gringos nos horários deles! Para gestão de turnês, o preparo físico é essencial e o sono praticamente não existe na estrada, precisa ficar ligado no 220 o tempo inteiro. E minha dificuldade nas demais atividades tem mais a ver com a criatividade: sempre tem aquele momento de “tela azul”, que as ideias somem da cabeça. Hoje, eu adoro quando fico sabendo que estou no artístico de uma turnê, ou fazendo a logística artística de eventos e shows. É uma das minhas atividades favoritas. Mas como gestora de conteúdo, eu exerço uma função muito amada, que é escrever, ler, estudar. Tão difícil explicar qual é a preferida ou a mais desgastante…

com Jason Momoa na CCXP

Qual é a principal tarefa de um tour manager? Quais as características para fazer um bom trabalho?
É gerir todos os aspectos que envolvem o artista na estrada: precisa ficar de olho nos horários da agenda, que é sempre apertado, ficar esperto com o que foi contratado do artista x a entrega final do promotor, cuidar das necessidades profissionais e algumas vezes pessoais do artista… Acho que as principais características são não ter medo de ficar acordado pra sempre, atenção ao rider contratual olhos bem abertos para todas as questões financeiras e de prestação de contas, além de ouvidos afiados para entender todos os pedidos que um artista pode vir a fazer.

Com Carlos Cavazo e DeMartini do RATT no Monsters of Rock

Provavelmente você já trabalhou com algum artista que admira muito. No início foi difícil se controlar e se mostrar 100% profissional ou conseguiu separar isso com facilidade?
Ano passado eu finalmente realizei o meu sonho, que era trabalhar em um show do Iron Maiden. Eu estava apta para qualquer função que me dessem, e acabei ficando com camarins. Mas não achei difícil porque eu, apesar da admiração eterna e paixão intensa que tenho pela banda, deixei meu lado fã na porta do estádio. Eu me acostumei com isso. Eu sou fã de muita coisa, e sempre consegui separar o lado fã do lado profissional, então bastou eu acionar esse “botão” na minha cabeça pra ficar concentrada na minha função, que era de abastecer o camarim dos caras. Eu pensei assim: se eu fui capaz de fazer a mesma coisa em The Rolling Stones, que é o maior dinossauro da história do rock and roll, o que me impede de fazer o Iron Maiden? E realmente, não impediu. Eu não abordei nenhum integrante da banda, não fiquei com cara de pastel sonhando acordada, nada. O lado fã só voltou quando meu trabalho já tinha terminado e eu estava na pista curtindo o show e chorando, como sempre.

Nessa, como em qualquer carreira, há contratempos. Quais foram os que mais te marcaram? Como contornar situações desse tipo?
Acho que foi um festival que trabalhei em coordenação logística uns anos atrás e deu ruim de todo o lado. Eu era contratada apenas, não tinha nada a ver com o cerne do problema, mas tive a confiança do mercado abalada com isso. Levantar a cabeça e provar com trabalho que nada do que boatos diziam foi a solução que encontrei. Eu já passei por situações de bullying quando era criança que, com certeza, foram muito piores, e com isso, eu adotei uma postura automática de sair do fundo do poço o mais rápido possível. A diferença é que antes, eu lidava com crianças que não tinham a devida educação em casa. Como mulher e profissional, as contas acumulam e aí você lida com concorrência louca pra te “derrubar” sem escrúpulos. Foi um período especialmente cruel pra mim, especialmente com isso de cyberbullying. Mas hoje eu uso esse tipo de problema como um case e como uma forma de mostrar pros meus alunos que esse tipo de coisa pode acontecer e como se prevenir para não sofrer com os mesmos problemas que sofri. E pra contornar, precisa ser brasileiro e não desistir nunca! A mesma paciência que tive quando estava começando, eu me obriguei a ter para que o momento ruim passasse. E contei com um mercado que sabe a diferença entre bom profissional e evento que dá errado. Mas o melhor sempre é trabalhar e entregar com excelência todos os projetos, mesmo os que podem vir a dar errado, porque é isso que dá margem para você continuar a trabalhar e continuar a ser bem recomendado.

Evento com Jake Bugg em SP

O Show Business ganha força a cada ano no Brasil. Quais as maiores causas desse crescimento?

Acho que o showbusiness cresceu no país de forma considerável com a volta do Rock in Rio, logo que virou o milênio. O crescimento econômico do país e o dólar bom na época também permitiu, na minha visão, que os promotores conseguissem aumentar o volume de shows. Entramos num período “estranho” de 2012 até a Copa do Mundo, mas aos poucos, com a entrada maior de marcas patrocinando mais shows e festivais, conseguimos dar essa “volta por cima”. Hoje, a projeção é que, mesmo com a crise, o mercado de entretenimento no país cresça a uma taxa linda, acima de 6% ao ano. O Brasil deve pular uma posição e ficar em oitavo lugar no ranking de faturamento com entretenimento ao vivo. É um mercado ótimo para artistas, marcas e tiqueteiras. E os fãs cada vez mais prezam pela experiência ao vivo. Então, só vejo projeções boas.

Atualmente você é gerente de conteúdo e ministra aulas na On Stage Lab, que é pioneira em cursos para o show business no Brasil. Fale mais sobre esses cursos.
A Fabiana Lian foi o gênio que colocou a escola de pé junto com a Bianca. Tínhamos um buraco nesse nicho: não havia nada que de fato preparasse novos profissionais para o mercado, que está se renovando com as novas gerações. Não existe mais tempo do mercado para que o profissional aprenda na marra, como foi o meu caso e o de muitos colegas. Agora, não há mais espaço pra erros. Nós temos vários cursos diferentes dentro de entretenimento ao vivo: um extensivo, que é o Showbusiness e os intensivos sobre assuntos específicos desse mercado. E temos cursos voltados para negócios para a música, pra músicos, novos empresários, assessores de imprensa e profissionais que desejam atualizar conhecimentos. Nosso principal mote de conteúdo são as nossas experiências e os alunos adoram ouvir nossas histórias. Além disso, buscamos atualização constante da indústria fonográfica, do entretenimento ao vivo e hoje não falamos só em produção de shows, mas do nicho como um todo. Sou suspeita, mas recomendo muito os nossos cursos, mesmo para quem só está curioso para entender como todas essas engrenagens funcionam.

Formando a oitava turma do Panorama do Show business pela On Stage Lab com Fabiana Lian e Thaís Komatsu.

Muitos alunos do On Stage Lab já se inseriram no mercado. Há setores mais saturados que outros ou há grandes oportunidades em todos eles?
O que existem são setores mais fechados que outros. A parte operacional, do fan experience, sempre precisa de profissionais em volume. Já para artístico, é mais difícil, mas não impossível. Produção técnica também tem uma demanda interessante. Mas há oportunidades em todos os setores, desde que haja paciência e autoconfiança para se inserir na área desejada.

trabalho em show com Fabiana Lian e Bianca Freitas e parte da turma formada na On Stage Lab

Quais as principais características para se destacar no meio? Inglês fluente é fundamental?
Acho que já citei várias delas: preparo físico e mental, paciência, insistência, raciocínio rápido. Também não dá pra levar as broncas do dia a dia pro pessoal, senão o produtor vai viver no banheiro chorando. Não dá pra ser emotivo, é um trabalho pragmático. Inglês e espanhol hoje são importantes, mas o inglês ainda é o idioma vital para o meio.

São mais de dez anos trabalhando com artistas. Considera que todas as lacunas foram preenchidas nessa sua jornada ou falta alguma?
Imagina, nunca! Eu ainda quero ser nerd de técnica, entender melhor de equipamentos de som e luz, de backline, que são meus pontos fracos, apesar de eu me virar bem quando necessário em produção técnica, mas muito porque eu sou destemida. Mas quero ter tempo para entender melhor dessa parte do mercado em específico.

com Magne Furuholmen do A-HA

Houve um aumento considerável de festivais no país. A falta de opções de grandes bandas que lotaria um estádio nos dias de hoje seria um motivo?
Isso vem sendo muito discutido no mercado ao longo dos últimos anos, mas acho que na verdade, os festivais ganharam espaço por serem experiências únicas para os fãs, que conseguem assistir a vários shows de artistas que curtem num mesmo dia. Isso dá margem para grandes experiências e lembranças de marcas, sem enfiar goela abaixo do expectador como é quando a gente tá na frente da televisão, com os comerciais sem fim. Eu, como fã, acho delicioso ir a um festival, curtir minhas bandas favoritas e conhecer novos artistas, encontrar amigos, conhecer gente nova e artistas que nunca tinha ouvido antes. Além de, claro, ser uma oportunidade comercial excelente.

com Bumblefoot e Fabiana Lian na 89FM

E para finalizar, quais as dicas para os futuros profissionais da área de entretenimento?
Insistam na área que desejam atuar, mas não esperem confiança do contratante do dia pra noite. Precisamos nos provar competentes de forma constante e diariamente. E o principal, que acho que muitos novos profissionais se esquecem: shows são legais de produzir, mas se você quer fazer grana e ser reconhecido pelo mercado, precisa pegar todos os tipos de job, por isso, não fiquem esperando só fazer show grande. O profissional de verdade faz show, evento, casamento, aniversário, velório, feira, corporativo, grande, pequeno, de todos os estilos musicais. Quem só faz direitinho quando tem show grande, com certeza, não é para esse mercado e, com mais do que certeza, não consegue sobreviver financeiramente.

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