Entrevistas

A melhor definição da palavra DrumTech tem nome: Léo Soares

Léo Soares

Léo Soares: Um bom roadie não aparece no palco e nem é visto em público, pois são como ninjas. confira Entrevista no Line Rockers.

Léo Soares: “Um bom roadie não aparece no palco e nem é visto em público, pois são como ninjas. Se alguém falar que te viu na hora do show é por que deu algum problema em algo e se você teve que aparecer, isso não é bom.”

Considerado um dos melhores drumtechs do Brasil, tanto que o reconhecimento do seu trabalho fez com que se tornasse o roadie de ninguém menos do que o baterista Mikkey Dee (ex- Motörhead e atualmente Scorpions), Léo Soares realizou as três últimas turnês mundiais do Motörhead e atualmente acompanha Mikkey nas turnês mundiais do Scorpions. Entre vários outros shows nacionais e internacionais que preenchem a sua consolidada carreira (e não foram poucos), Léo é sempre muito requisitado e impressiona com seu modo responsável de trabalhar.

De volta ao país após uma turnê com o Scorpions, Léo concedeu essa entrevista para o Line Rockers.

O seu primeiro instrumento foi a bateria? De onde surgiu esse interesse?

Léo Soares: Olá Debora! Bem, por incrível que possa parecer meu primeiro instrumento foi um baixo ACS, que era um berimbau com 4 cordas (risos). Coisa medonha! Isso foi quando eu tinha uns 5 anos de idade, mas no ano seguinte, eu estava vendo um programa chamado “Som Pop” que passava na TV Cultura, e me peguei boquiaberto quando vi um clipe em que o Cozy Powell estava tocando. Aquilo mudou minha vida, e a partir desse dia eu ficava na frente da TV todos os domingos, com a fruteira da minha mãe para servir de hi-hat e pratos, e usava as agulhas de tricot para ser as baquetas.

Quais os seus bateristas preferidos? Quais te influenciaram nessa escolha?
Léo Soares: Phil Collins , Chester Thompson , Alan White , Neil Peart , Clive Burr , Nicko Mcbrain , Mikkey Dee , Ian Mosley e Cozy Powell . Acho que só (risos)! Cada um tem um certo jeito de tocar, com sua própria característica e acho que tentei absorver todos.

Você integrou bandas ou resolveu ser drumtech desde o começo?
Léo Soares: No início, quando eu tinha 12 anos de idade, tive a minha primeira banda com uns amigos do bairro, e logo na sequência as coisas começaram a virar. Um show aqui outro lá, mas nada certo. Depois de alguns anos, tive uma banda de metal que se chamava REDRUM, em São Paulo, e aí que começaram a aparecer os primeiros shows de verdade. O trabalho de drumtech começou mesmo por que eu usava a bateria do Rubens Barsotti, do ZIMBO TRIO, nos ensaios e shows da minha banda, e como forma de pagamento eu tinha que ajudá- lo a limpar e fazer a manutenção dela. Lembro que era uma Ludwing anos 70 com pratos Paiste. Minha base como drumtech foi incrivelmente coroada por dois monstros: Rubens Barsotti e Netinho, do OS INCRÍVEIS, pois foi com ele que aprendi como afinar e manter postura em um palco. Muitas broncas depois, de ambos, acho que deu certo.

Quando foi o seu primeiro contato com a profissão, e para qual banda?
Léo Soares: Foi em um show do ZIMBO TRIO, e era bem amador o meu trabalho nessa época. Acho que isso ocorreu em 90, mas profissionalmente foi com OS INCRÍVEIS, em 91 . Lembro de ficar vendo um drumtech dessa época que trabalhava para o Sepultura, chamado Kishi, e eu falava para mim mesmo que um dia iria trabalhar como ele (risos). Mas tive outros heróis roadies, como por exemplo o Henry Ho, que quando estava no Japão e escrevia para a Rock Brigade contando as suas aventuras por lá, fazia com que a minha mente fosse longe.

Para quais grupos nacionais você trabalhou? Qual o que mais se destacou?
Léo Soares: Bem, se eu for enumerar todas as bandas que trabalhei não vai sobrar espaço suficiente para o resto (risos), mas resumidamente foram Zimbo Trio, Os Incríveis, Biscoito Molhado (Sandro Haick, Cuca Teixeira e Turquinho Filho revezando na bateria), Deborah Blando, quase que todas as bandas do selo Banguelas com Little Quail, Kleiderman (dos caras do Titãs), Camisa de Vênus,  Capital Inicial com o Murilo Lima nos vocais, passei pelo pagode com o Katinguelê, isso pode acontecer quando o rock está em baixa(risos), depois novamente com o Capital Inicial (2000 em diante), NX Zero, RPM, e muitas outras.

Turnê com o NX Zero no Japão

Turnê com o NX Zero no Japão

Acho que em todas eu tive uma boa vida útil, pois ficava mais de dois anos em cada banda, e em várias ao mesmo tempo. Nessa época eu trabalhava de segunda a segunda. Que tempo bom!

Você acompanhou o Capital Inicial por mais de 12 anos. Como surgiu a oportunidade desse trabalho e o que significou para você?
Léo Soares: Um dia eu estava desembarcando a equipe do Katinguelê em Congonhas, e o roadie do Capital na época, que é um grande amigo, veio me perguntar como eu estava e se eu queria mudar de banda, pois o Capital tinha acabado de gravar o acústico e iria começar uma tour grande na época. Como eu já tinha trabalhado com eles na década de 90, achei que seria uma boa retornar, e foi o que eu fiz. Por lá fiquei 12 anos e alguns meses trabalhando com o batera Fê Lemos. Olha, foi nessa época que eu cresci como profissional, pois lá tínhamos que fazer as coisas acontecerem. O Capital era um grupo em evidência e nada poderia dar errado. Foi uma época em que eu me cobrei muito para me aprimorar em conhecer o equipamento que trabalhava, e em saber como tudo funcionava. Foi uma ótima fase da minha vida, mas como tudo, temos que encerrar um ciclo para abrir um novo. Foi difícil sair, mas era preciso.

Afinando a bateria do Mr. Dee

Afinando a bateria do Mr. Dee

Além dessas bandas nacionais, você foi o responsável pela bateria de grandes nomes internacionais que fizeram shows pelo país. São tantos, mas daria para resumir alguns?
Léo Soares: Resumindo bem resumido: Nigel Glockler, Simon Wright, Dave Lombardo, Herman Rarebell, Bobby Blotzer, Vinny Appice, Ian Mosley, Robert Sweet, entre muitos outros. Já perdi a conta.

Algum desses trabalhos te fez estremecer? Por quê?
Léo Soares: Sim, Dave Lombardo! Cara, só por ele ser o Dave Lombardo (risos). O cara criou muitas coisas fodas com o Slayer, e sempre soube que ele era muito ranzinza com a batera. Por isso o cuidado foi mais do que redobrado.

Com Dave Lombardo

Com Dave Lombardo

O que faz um drumtech? Qual a sua rotina no Backstage?
Léo Soares: O básico que um drumtech faz é a manutenção, a afinação, e o cuidado com o baterista e com o equipamento. O mundo pode estar desabando, mas o seu baterista e sua bateria precisam permanecer intactos. Eu tenho uma rotina de trabalho que beira a loucura, com TOC (risos). Gosto de chegar cedo e rever peça por peça da bateria, limpar tudo o que for possível, e passar um bom tempo verificando a afinação. Normalmente na minha atual banda, temos o tempo de montagem de 2 horas, contando com a passagem de som que não dura mais do que 20 minutos. O resto do dia fico na batera, limpando, polindo,… eu trato esse instrumento como se fosse um filho ou uma esposa.

Tour com Motörhead

em tour com Motörhead

Falemos sobre o Motörhead. Como surgiu a oportunidade de ser o drumtech do Mikkey Dee?
Léo Soares: O sonho! Só posso começar assim… no Motörhead, há anos trabalhavam 2 brasileiros, e um dia um deles, que é um grande amigo meu, me ligou dizendo que estavam precisando de um drumtech. Eu achei que era para algum show aqui no Brasil, e falei que estava livre. Depois ele soltou a bomba: “Você virá para a Europa e ficará um mês com o Motörhead para fazer 6 shows, pois o nosso drumtech não poderá seguir nesse período”. Cara, foi como ganhar na Mega Sena, mas pensei: “Porra, só um mês? Poderia ser mais!”. Bem, após um mês embarquei para Londres, onde encontrei o resto da equipe em um depósito, e foi onde tive o meu primeiro contato com a bateria, e ainda parecia um sonho. Mesmo lendo na pele do bumbo as palavras Motörhead e Mikkey Dee, eu ainda não acreditava. No dia seguinte fomos até Londres para montarmos os ensaios, e quando estava terminando de montar a batera, eis que adentra a sala, o Deus Lemmy Kilmister em pessoa. Foi uma coisa de outro mundo. No mesmo dia, mais tarde, me apresentaram ao Mikkey Dee, que é uma referência na minha formação musical desde os tempos de King Diamond. Resumindo, após o terceiro show que ocorreu no Hyde Park, em Londres, com o Black Sabbath, Faith no More, Soundgarden e Soulfly, sem a passagem de som ou coisa do tipo, fui chamado ao camarim do Mikkey. Achei que iria tomar uma bronca daquelas, pensei que algo tinha dado errado. Mas não, ele me convidou para fazer parte da equipe, pois ele tinha gostado muito do meu trabalho, da minha postura de palco e da minha afinação, ou seja, eu estava dentro. Fizemos juntos três tours pelo mundo: a Aftershock Tour, Victoria aut Morte 40 anos de banda, e a última tour que foi o Black Magic, e eu tenho meu nome eternizado em dois discos deles. Cara, isso para quem é fã do baterista e da banda não tem preço.

Imagino o grande privilégio que foi excursionar com o Motörhead e conviver com o Lemmy, antes dele falecer. Quais os melhores momentos disso tudo?
Léo Soares: Acho que tudo! Desde os shows, até os momentos de indecisão, sabe, a dúvida se teria a tour, e se teriam os shows. Pode soar triste, mas ele sabia que estava no fim, e não queria parar. Ele amava o que fazia. Vê-lo sorrindo e ao mesmo tempo tremendo de dor era triste, pois eu estava ao lado dele, e eu via ele reclamando com o Tim (basstech do Lemmy) que as mãos doíam, ou as costas, ou os braços, ou tudo… e muitas foram as vezes que eu estava em meu “drum world”, e ocorriam reuniões entre eles, entre as músicas, para ver se ele estava bem. Cara, foi muito surreal. Ás vezes ainda não acredito nisso e sinto saudades, pois era uma família, um ajudando o outro, ninguém querendo ser mais que o outro. Existia respeito. Se as pessoas pudessem ter tido 10% da minha experiência naqueles dias, iriam ficar maravilhadas. Isso porquê eu fiquei pouco tempo, mas imagino para os outros da equipe que estavam há décadas.

Último show do Motörhead com o saudoso Lemmy ao fundo

Último show do Motörhead com o saudoso Lemmy ao fundo

Atualmente você trabalha para o Mikkey Dee no Scorpions. O que está significando para a sua carreira?
Léo Soares: Trabalhar para o Mikkey não é fácil mas também não é difícil. Existe um equilíbrio e eu acho que achei esse equilíbrio. Para mim foi uma honra quando ele me convidou para me juntar a ele no Scorpions, pois mostrou que ele confia no meu trabalho e na minha pessoa, pois lá tenho que lidar com muitas coisas pessoais dele. O significado disso eu não sei, está me mostrando que estou no caminho certo para algo que não sei ainda o quê, mas estou vivendo o dia a dia e essa experiência é muito boa para o meu currículo.

Com o BOSS Mikkey Dee

Com o BOSS Mikkey Dee

Temos grandes profissionais brasileiros trabalhando para bandas e músicos internacionais, mas muitos não conseguem seguir com a carreira por falta de oportunidades. Trabalhos não faltam, mas acha que esse meio é, na maioria das vezes , restrito?
Léo Soares: Não é que seja restrito, mas existem aqueles que fazem com paixão e aqueles que fazem pelo ego. Todos tem o mesmo objetivo que é pagar suas contas e etc, mas o que eu mais vejo são competições desnecessárias do tipo: “A minha agenda está mais gorda que a sua” e “Eu vou para a Europa e você vai para Sorocaba”. Sabe, não tem união, falta um pouco mais de companheirismo, tem pessoas que não se esforçam para realizar um ótimo trabalho só porque o show é em uma praça em Dobradiça do Norte com uma banda fuleira. Não importa quem seja, você sempre tem que dar 100%. Por isso muitos “aventureiros de credencial” acabam pelo caminho. Esse trabalho literalmente separa o menino do homem. Existe a “panela” também, como em qualquer trabalho. Se isso acontece até em Mcdonalds, você acha que não irá acontecer em um ambiente onde o ego está sendo sempre massageado?

Turnês tem dessas

Turnês tem dessas coisas

Já trabalhamos juntos num show, há alguns anos, em que muitos contratempos aconteceram. Naquele dia, você não apenas mostrou seu profissionalismo, mas também foi um dos responsáveis pelo evento realmente acontecer. Acha que há muitos profissionais amadores no meio musical do país, e o quanto isso prejudica nosso trabalho lá fora? Ou seria apenas uma minoria e não interfere tanto nessa percepção?
Léo Soares: Sim, e interfere em muito, infelizmente! Nesse episódio que você está falando, sim, houve “zilhões” de contratempos que poderiam ser evitados e cumpridos. E foram coisas banais, que poderiam ser resolvidas com calma se não fosse pela a arrogância do ser humano, e não estou dizendo do contratante em si, mas sim do ser humano mesmo. Pessoa que quer ser mais que o outro, sabe, bater no peito e falar: “Eu fiz!”, mas não fez nem a metade. E isso lá fora é comentado sim, e lá as pessoas, principalmente os bookers ou as bandas, falam que no Brasil é tudo difícil ,e realmente é. Mas acho que isso está mudando, pois existem pequenas produtoras que estão honrando com suas palavras e realizando grande shows, e as médias estão crescendo não só com mão de obra, mas também com integridade e respeito com o consumidor e com as bandas contratadas. Sempre há esperança, e se tem uma luz no fim do túnel, acho que ela está próxima.

No mundo da música, como em todos os outros, há pessoas querendo “puxar o tapete” para se beneficiar. Acha que isso acontece muito por ser um meio mais fechado? Como lidar com isso?
Léo Soares: Quando alguém souber como evitar um “puxão de tapete”, essa pessoa vai ficar rica (risos). Muitos se aproveitam do conhecimento ou da técnica do outro, e vendem como se fossem suas técnicas. Tem um “mano” em Fortaleza, que não citarei o nome, que se vende como drum tech de bandas como Tarja, Nightwish, Testament, entre outras bandas gringas, e dessas bandas, uma eu era o drum tech e stage manager. Então, como ele era o drum tech se no tour book não constava o nome dele? O cara apareceu para dar uma força para um “brother” que alugou a batera. Só isso! Mas o marketing dele no nordeste do país é de que ele é fodão. Isso nem é “puxar o tapete”, e sim falta de vergonha na cara mesmo, falta de tomar um tapão na orelha e virar homem. E nesse mercado está cheio de pessoas fantásticas, mas também tem os que só se aproveitam, esperando a “carniça feder” pois são urubus mesmo.

Como se tornar um roadie de sucesso profissional? O que recomenda?
Léo Soares: Não tem sucesso nesse meio, tem o reconhecimento por você ser íntegro e capacitado em ser o melhor para sua banda. Saber negociar seu cachê sem ferrar a classe. O sucesso quem tem é o músico, você tem que se contentar em ser o melhor de você mesmo, não ser arrogante, pois o mundo dá voltas. Ser verdadeiro. Perguntinha difícil essa hein? (risos)

Como você descreve o seu momento atual, e quais os seus planos para o futuro?
Léo Soares: O meu atual momento está muito bom, caminhando conscientemente. Estou mais focado em algumas produções técnicas e me aventurando por outras áreas do mercado. Acho que todos precisam se reciclar de tempos em tempos, e é exatamente o que vou fazer e estou fazendo.

Há algum músico em especial que gostaria de trabalhar? Por quê?
Léo Soares: Nicko McBrain! Acho que não existe uma razão. Nicko sempre será Nicko, desde antes do Maiden.

Com Nicko McBrain

Com Nicko McBrain

E para finalizar, qual o conselho que fica para os futuros roadies?
Léo Soares: Estudem, estudem e estudem. Sejam íntegros com vocês e com os outros. Um bom roadie não aparece no palco e nem é visto em público, pois são como ninjas. Se alguém falar que te viu na hora do show é por que deu algum problema em algo, e se você teve que aparecer, isso não é bom. Mas para você que quer fazer parte desse circo, só digo que seja íntegro.

Um break antes do próximo voo

Um break antes do próximo voo

Para mais informações sobre Léo Soares, entre em contato pelo email leodrumtech@hotmail.com ou através de seu perfil no facebook

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