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Shadow of Sadness – Entrevista com o vocalista e guitarrista Christian Avon

Banda Shadow of Sadness

O vocalista e guitarrista Christian Avon da Shadow of Sadness falou um pouco sobre a trajetória da banda, os trabalhos e muito mais.

A banda Catarinense Shadow of Sadness formada atualmente pelos integrantes: Christian Avon (guitarra e vocal), Rafael Schirrmann (guitarra), Daniel Iahn (baixo) e Thiago Diniz (bateria), surgiu em 2001 na cidade de Itapema.

Banda Shadow of Sadness

O que a principio seria apenas um “passatempo” entre amigos com o intuito de tocar músicas que pudessem ser lembradas um dia, deu lugar a uma banda consistente, madura e que preza pela qualidade e minúcia de detalhes.

Influenciada por estilos que vão desde o heavy ao death metal, a Shadow of Sadness sempre buscou trazer para si uma personalidade própria, “com o tempo, e com as imprescindíveis mudanças de formação, temperou suas composições dentro do que muitos chamam de death melódico, apesar de não se abster de explorar o que enriquecesse a audição das músicas”

A banda conta com um demo de seis músicas lançado em maio em 2001, um álbum denominado “Way to Hell” de Outubro de 2014 e seu mais recente trabalho intitulado em código Morse “…—…” (leia-se S.O.S).

Entre as ótimas bandas que surgiram da safra do metal catarinense no início dos anos 2000, é uma das poucas remanescentes, com mais de uma centena de apresentações e completando 15 anos de existência em 2016.

Aproveitando o momento, entrevistei o vocalista e guitarrista Christian Avon que falou um pouco sobre a trajetória da banda, os trabalhos e muito mais, confira abaixo:

De onde surgiu o nome da banda e o que os inspiraram?

O primeiro nome que tivemos foi Kratera. Era ali por 1998, quando estávamos começando a aprender a tocar e só rolavam covers. Ao enveredar para o caminho das músicas próprias (que estavam começando a surgir), sentimos a necessidade de mudar o nome. Kratera já não representava o sentimento da banda. Fizemos algumas tentativas de nomes diferentes, mas nenhum colou. O nome Shadow of Sadness surgiu num sábado do final de 2000. Eu estava naquela ideia de encontrar um nome definitivo, pensando em algo que fosse original e escutava meus CDs, mais especificamente o álbum Shades of God, do grande Paradise Lost. Na música Pity The Sadness, eu parei e fiquei olhando para a arte do disco, tentando juntar algumas palavras, até que veio a ideia. Pareceu-me boa, abstrata, algo que ninguém usaria e ao mesmo tempo totalmente condizente à procura. Mostrei pros demais membros e todos aprovaram.

Tempos depois, descobri que Shadow of Sadness é uma expressão em inglês que demonstra um estado melancólico, depressivo. Fez ainda mais sentido. Também descobri que uma banda finlandesa de heavy metal tem uma música com este nome, que virou um single, em 1990. Também descobri, há uns três anos, uma banda da Indonésia que tem Shadow of Sadness como nome.

Afinal, não foi um nome tão original.

A Shadow of Sadness já completou 15 anos e certamente já vivenciou muitos percalços, sejam eles por fatores internos ou externos. Com relação à cena musical de 2001 a 2016, houveram algumas mudanças? No ponto de vista da banda, quais foram as perdas e/ou ganhos dessa evolução?

Quem dera existisse a oportunidade de tocar o que e como tocamos hoje em 2001. Talvez conseguíssemos uma fatia do bolo com alguma cobertura e não apenas os farelos.

Apesar de não chegar nem perto da divulgação que existe hoje, as pessoas compareciam aos shows. Existia um público que prestigiava as bandas. O tempo mostrou que a tecnologia abriu uma imensidão de possibilidades para conhecimento musical. Se você quer ouvir certa banda, apenas digite o nome dela no Google. Mas esta facilidade torna as pessoas acomodadas. É meu pensamento, e acredito que há de se concordar com isso, que o que vem fácil torna-se desinteressante facilmente. Então observo muita gente ativa por trás da tela, mas não nos shows. Claro que ainda bem que existem pessoas que prestigiam, mas alguns shows chegam a ser dignos de pena, pois se monta uma estrutura, se divulga, e as bandas tocam para outras bandas praticamente.

Neste período que estamos aí, vimos altos e baixos, sendo que a cena esteve bem forte nos idos de 2003 a 2006, vindo a sofrer bastante depois disso.

Em termos de ganho seria esta facilidade que se criou em ter o mundo na ponta dos dedos, tornado as pessoas mais próximas, sendo que a perda maior é esta proximidade se limitar à tela do computador/celular. Talvez estejamos em um ponto de transição, onde há de se encontrar um equilíbrio, ou talvez – abrindo espaço para uma metáfora – a guerra já esteja perdida, com alguns poucos soldados tentando, a todo custo, derrotar o inimigo, ainda que se utilize dele como principal ferramenta de ataque.

Com relação ao amadurecimento dos trabalhos, o que mudou?

Começamos do zero. Não fazíamos parte de uma cena, ou sequer conhecíamos muitas pessoas relacionadas a bandas. Nossa percepção de como uma banda deveria ser surgiu exclusivamente daquilo que estava disponível, seja por fitas K7, vinil, cd ou VHS. Não existia internet (pelo menos para nós). Então tivemos que garimpar conquistas, tentando fazer alguém que quisesse nos ouvir. Como a inexperiência dominava, era difícil. Eu mesmo, hoje, não me interessaria pela banda de 2001. Quando gravamos a Demo em 2001, tudo era novo, e foi uma experiência incrível, ainda que o resultado esteja bem distante do que fizemos em 2004, no Way to Hell. No período de gravação do primeiro álbum já havia certa carga horária por trás dos integrantes, éramos bastante engajados em relação a tudo.

Mas também foi na época do Way to Hell que tivemos as primeiras mudanças de formação, com a saída do vocalista e baixista e posteriormente o baterista. Ao mesmo tempo em que mudou a formação original, deu chance de tentar evoluir a partir daquele ponto, pois o núcleo de composição (guitarras – Christian e Rafael) continuou, adicionando membros com qualidades diferentes. A partir dai começaram as ideias para o segundo álbum, que acompanhou a evolução que tivemos na banda.

A banda passou por um período de mudanças e inatividade certo? Como vocês avaliam toda a trajetória da banda ao longo destes 15 anos?

Sim, houve mudanças. Primeiramente em 2004, com a saída do vocalista (Alex) e baixista (Neto), sendo que eu assumi o vocal e guitarra e meu irmão (Fernando), o baixo. Posteriormente, em 2005, teve a saída do baterista (Robson). Após menos de um ano, o substituto (Alexandre), também saiu, entrando o baterista atual (Thiago).

Ali por 2011 e 2012 tivemos um período onde sequer ensaiamos ou tivemos shows, e foi aonde a banda chegou perto de um fim. Tínhamos o disco instrumental gravado, mas as vozes ainda não, e havia muito trabalho de letra a ser feito. Com exceção de mim, os demais se envolveram em projetos, enquanto aguardavam uma definição. Por fim, o baixista (Fernando) decidiu se desligar da banda, visto que seu projeto tinha se tornado sua banda principal.

Foi aí que entrou um velho amigo (Daniel), que já havia quebrado galhos conosco. Foi a escolha natural e nos ajudou a recuperar do marasmo que estávamos.

Em termos de trajetória, 15 anos passam rápido, e cada show que fizemos está em nossas memórias. Então é incrível sobrevivermos tanto tempo, visto o estilo em que nos enquadramos. Avalio a banda como alguém que planta esperando colher algo. Pegamos um solo seco e rachado e fomos aos poucos tornando ele cultivável. Já tivemos safras boas e períodos de estiagem, mas não deixamos de espalhar nossa semente. E esse terreno vai longe.

Porque “…—…” (SOS) e a ideia de relacionar os nomes das músicas ao nome do álbum?

Quisemos experimentar algo diferente, talvez inédito. É comum/padrão uma música batizar o álbum. As vezes nenhuma, o título é somente o título.

A ideia veio pra ir contra o que já existia. Dando ao título características de iniciais e tendo todas as músicas com essas iniciais, tínhamos todas elas como título, formalizando algo com ares conceituais.

Já o …—… veio do Código Morse e significa as letras SOS. É o código usado em emergências e a ideia de colocar desta forma foi para deixar minimalista e também de uma forma curiosa.

sos

“…—…” (SOS) é um trabalho bem elaborado e emblemático que mesmo aqueles que não acessaram as publicações que se referem as historias individuais das músicas percebem que não são letras aleatórias, essa busca por “dar alma” ao trabalho através de tantos significados sempre foi o foco da banda ou isso foi adquirido com o tempo?

Sempre prestei atenção nas letras das músicas das bandas que gosto e é o maior prazer lê-las e encontrar um conteúdo cativante. Sempre busquei isto ao escrever uma letra. Algo com conteúdo, que faça sentido para alguém, mesmo que de forma diferente daquela que foi concebida. Que inflija uma sensação, que faça correr um arrepio, que inflame sentimentos. Way to Hell já vinha preparando campo para isto, mas talvez no SOS tenha aflorado mais.

Esta busca pela tentativa de dar um conteúdo para a letra foi o fator maior na demora delas nascerem. Não era questão de sentar e escrever. Era necessário um impulso e nem sempre ele aparecia. No fim, quando a demora já era demasia, nos juntamos em três oportunidades e fizemos sair na pressão.

As musicas de vocês contam muitas histórias e reflexões certo? O que os motiva e como são elaboradas as letras de vocês?

Sim. O mote sempre parte de um sentimento. Se buscar, as letras se revelam.

Ali existe medo, raiva, admiração, dúvida, saudade, motivação, desespero, amor, entre outros. Somos seres sentimentais. Nossos sensores trabalham nessa gama que nos transforma naquilo que somos e nas variáveis que somos.

Elaborar a letra parte do sentimento que se quer passar, mesmo que não esteja claro a princípio (pode mudar conforme a sua escrita evolui). A partir dai, busca-se uma história que exemplifique e esteja naquele contexto. O motivo pode ser qualquer um, desde que inspire uma construção. Por isto existem letras pessoais e histórias fantasiosas, mas sempre contextualizando um sentimento.

Resumidamente, o que também encontrar de conceitos e significados nos trabalhos anteriores?

No nosso trabalho anterior, Way to Hell, cada uma das músicas esteve representada na capa, através de algo que remetia a sua letra. É um bônus para os atentos. E de uma forma objetiva ou figurada, todas as músicas tem seu porque significante. Resumidamente: a falta de opinião própria ou sentido na vida (Make a Question), a súplica perante uma virada de ser dominante a dominado (Mercy is Your Desire), riqueza frente à perda do amor verdadeiro (All and Nothing), seu eu de encontro a outro eu (Nightmare), a busca por um resquício de verdade num mundo de mentiras (The Master of the Truth), a loucura aflorando à pele (Evil Inside Me), clonagem humana (The I That Should Not Be), a velhice em doença em contrapartida a juventude sadia (Old Man), o desespero diante uma força destrutiva (Shock Wave), a descoberta de um inimigo inimaginável (My Best Enemy), e o arrependimento tardio (Way to Hell).

Voltando à questão da cena musical e independente, percebo uma certa comparação de bandas de outros estados à cena musical catarinense (que a outros olhos é bem vista e tida como forte, principalmente no interior) e esta mesma comparação de bandas catarinenses com relação às oportunidades de São Paulo (capital). Pra vocês existe essa diferença? Santa Catarina tem de fato um público mais forte que São Paulo ou o inverso?

O jardim do vizinho sempre é mais florido. Isto é claro, natural, óbvio, gritante. Acredito que cada qual tenha suas vantagens e desvantagens. E não apenas SP e SC. Ocorre em todo lugar. É sonho das bandas daqui tocar em outros estados e países, assim como tem muita banda querendo vir pra cá. São Paulo certamente tem mais oportunidade, visto o tamanho da cidade, com inúmeras casas de show, eventos e bares. Mas as bandas de lá também têm seus percalços, principalmente as autorais, que são relegadas à segunda opção em um mercado onde o cover/tributo domina. Curitiba também é assim. Talvez seja isso que faz os olhos brilharem quando se fala em Santa Catarina, pois apesar de termos menos oportunidades em datas, se dá prioridade ao autoral.

Observa-se que produtores de eventos e festivais colocaram a mão na cabeça e viram que sem as bandas autorais, que existem em grande quantidade e qualidade, a cena tende a morrer, dando espaço para que outros estilos dominem os já raros estabelecimentos que se propõem a tocar metal.

E as novidades tem algum projeto novo em andamento? O que podemos esperar de novo a ser lançado?

Queremos tornar o “SOS” físico, para levar em shows, e também saciar o público que ainda gosta de ter o disquinho em mãos, acompanhando as letras no encarte, sentir o cheiro da tinta e tal, como era feito até a internet acabar com a magia.

Seguimos com a produção independente de nossos clipes. A ideia é fazer um clipe para cada música do álbum e lançar a cada dois ou três meses. Por enquanto estamos cumprindo a agenda.

O lançamento de um novo trabalho depende muito do retorno que tivermos com este. Independente disto, continuaremos criando e tocando onde for possível. Com certeza, somos os mais interessados em que nossa música chegue até os lugares mais distantes.

Conheça o novo álbum da Shadow of Sadness

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