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The Skatalites: vigor técnico, subestimação de público e entusiasmo

Veja como foi a passagem do grupo precursor do ska por São Paulo/SP

Crédito: Carol Marinho Martin)

Veja como foi a passagem do grupo precursor do ska por São Paulo/SP

Não seria exagero classificar os dois shows que a banda Skatalites fizeram nos dias 8 e 9 dezembro no SESC Belenzinho, em São Paulo/SP, como os mais concorridos do ano. Como falamos aqui, os ingressos esgotaram assim que postos a venda e a expectativa (não saciada) para que show extras fossem marcados ou mesmo mais ingressos fossem disponibilizados frustou muita gente. Mas por que esse alvoroço todo?

Casa completamente lotada (Foto por Carol Marinho Martin)

A banda Skatalites tem como embrião os encontros entre Tommy McCook (saxofone tenor), Don Drummond (trombone) e Roland Alphonso (saxofone tenor), que entre o fim da década de 1950 e começo da década de 1960 se reuniram em diferentes ocasiões para tocar e gravar na Jamaica. Basicamente músicos de estúdio, somam-se ao trio Lester Sterling (trombone e sax alto), Lloyd Brevett (contrabaixo),  Lloyd Knibb (bateria), Jerome Jah Jerry Haynes (guitarra), Jackie Mittoo (piano), Johnny Moore (trompete) e Jackie Opel (voz) e é lançado, em 1964, o LP “Ska Authentic”.

O LP “Ska Authentic” (Foto Amazon.com)

Gravado no “Studio One”, em Kingston, legendário estúdio/selo fundado por Clement Dodd e fomentador dos principais movimentos da música na Jamaica nos anos de 1960 e 1970, “Ska Authentic” marca a “criação” do ska. Gênero precursor do rocksteady e do reggae, o ska combina a forma jamaicana de reproduzir o rhythm and blues americano (especialmente aquele produzido em New Orleans, Louisiana) misturada com a batida de elementos populares caribenhos, mais notadamente o mambo de Cuba e o mento. Fatores políticos como a independência da Jamaica do Reino Unido em 1962 colocaram o país em estado festivo, sendo o ska o ritmo que melhor expressava esse clima de comemoração.

A formação original da banda Skatalites sofreu sua primeira baixa pouco tempo depois do lançamento do primeiro álbum. Em 1965 Don Drummond matou a esposa e foi internado num centro psiquiátrico, onde morreu dois anos depois. Esse fato provoca a dissolução do grupo mas não o fim do ska, que ganha nova roupagem com acordes de guitarra e letras mais agressivas do punk rock na década de 1970 na Inglaterra (o chamado “2 Tone”) e um terceira onda dominada pelos riffs de guitarra e longos trechos de trompas e trompetes nos EUA na década de 1980 e 1990.

Parte do grupo chegou a se reunir em 1974 para a gravação do álbum solo do baixista Lloyd Brevett, mas foi somente em 1983, a convite da produção do Reggae Sunsplash (um dos maiores festivais de reggae da Jamaica), que os Skatalites se conciliaram novamente. Desde então, membros antigos faleceram e foram sendo substituídos por novos integrantes, culminando na formação atual.

A plateia lotada para ver o show (Foto por Carol Marinho Martin)

O grupo já esteve outras cinco vezes no Brasil desde 2007, quando se apresentou aqui pela primeira vez. O local de apresentação dessa vez foi o SESC Belenzinho, na Zona Leste de São Paulo, decisão esta que subestimou o sucesso que a banda tem junto de seu público brasileiro: os pouco mais de 400 ingressos para cada apresentação esgotaram-se em minutos. A procura exaustiva pela oportunidade de ouvir a banda ao vivo foi motivo de acertadas reclamações, principalmente nas redes sociais. Nos dias de shows, ingressos eram vendidos por valores exorbitantes na entrada da unidade e muitas pessoas voltaram para casa fatigadas pela (pouca) boa vontade dos funcionários da unidade.

(Foto por Carol Marinho Martin)

Entretanto, quem garantiu sua entrada no show presenciou momentos memoráveis. Comum na rede SESC, o show começou apenas cinco minutos fora do horário. A banda entrou no palco e foi imediatamente ovacionada pela plateia. Como de praxe, o empolgado tecladista Ken Stewart iniciou uma contagem regressiva para a abertura da noite com “Freedom Sounds”. Veja o vídeo:

The Skatalites Band​ no Sesc Belenzinho​ – 08.12.2017

The Skatalites Band no Sesc Belenzinho 08.12.2017The Skatalites @ SESC BelenzinhoThe Skatalites é:Doreen Shaffer: vozKen Stewart: tecladoAzemobo Audu: sax tenorTravis Antoine: trompeteAndrae Murchinson: tromboneAurelien Metsch: guitarraVal Douglas: baixoSparrow Thompson: bateriaProdução: Radiola Records & BookingFormado em 1964, os Skatalites são os criadores do ska, do reggae e a primeira backing band do Studio One, que revelou ao mundo Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff e outros nomes históricos para a música do século XX. Na sua sexta visita ao Brasil, o grupo toca clássicos como "Latin Goes Ska", "Eastern Standard Time" e "Phoenix City". A formação atual inclui a cantora Doreen Shaffer, remanescente da semente original dos Skatalites. O repertório do show relembra a primeira passagem da banda pelo Brasil em 2007, registrada no DVD ARENA, lançado pela Radiola Records, e traz também temas do mais recente álbum da banda PLATINUM SKA (2016)

Posted by Trilha Sonora da Carol on Tuesday, December 12, 2017

Aurelien Metsch (guitarra), Val Douglas (baixo), Sparrow Thompson (bateria) e Ken Stewart (teclado) executam a base para a performance de Azemobo Audu (sax tenor), Travis Antoine (trompete) e Andrae Murchinson (trombone). Nessa primeira parte do show, toda instrumental, os sete músicos impressionam pela precisão técnica e competência na execução de músicas como “Confucius”, “Latin Goes Ska” e “James Bond Theme”. A plateia era uma mistura de comoção, entusiasmo e admiração. Os músicos agradeciam com longos solos que poderiam durar a noite inteira.

(Foto por Carol Marinho Martin)

(Foto por Carol Marinho Martin)

O tecladista Ken Stewart e o guitarrista Aurelien Metsch (Foto por Carol Marinho Martin)

Chegou então mais um esperado momento da noite: Doreen Shaffer juntou-se aos músicos no palco. Doreen é da formação original dos Skatalites: ainda que não creditada quando se fala da história da banda, ela participou de todo o processo de criação e acompanha o movimento do ska pelo mundo.

Doreen junta-se ao grupo (Foto por Carol Marinho Martin)

Doreen no palco (Foto por Carol Marinho Martin)

Ela se prova como uma verdadeira enciclopédia viva sobre o ska não só em cima do palco, mas em momentos como a mesa “Dichavando​ ​o​ ​Ska”, ocasião em que “deu aula” para seus colegas de debate, durante a Semana Internacional de Música em São Paulo. Sobre estar no Skatalites, ela declarou “Sou agradecida que possa fazer minha parte e agradar todas essas pessoas. O que quer que eu dê para a plateia, eu recebo em energia de volta para mim”.

Doreen durante a SIM São Paulo (Foto: Facebook Skatalites)

Doreen é encantadora. Durante “Golden Love”, muitas mulheres foram para a frente do palco e ali receberam “I love you” da “Rainha do Ska Jamaicano”, que responderam no mesmo tom fervoroso a ela. A vitalidade com que Doreen apresenta as canções se assemelha a de muitos artistas mais velhos (como eu também pude notar em Nelson Sargento aqui e aqui).

A encantadora Doreen (Foto por Carol Marinho Martin)

Esse é um ponto que merece destaque: o vigor técnico e artístico dos Skatalites. Se grande parte dos artistas do mainstream mais jovens agoniza, ainda que em condições favoráveis (como acesso a bons instrumentos, bons estúdios e boa produção), e acaba por criar canções de resultado duvidoso, a banda investe em muito treino, ensaios e disposição. Foi isso que Doreen me disse numa entrevista quando questionei sobre os atributos que um músico teria que ter para entrar na banda. “Mas não, não estamos procurando novos integrantes, a formação atual está completa”, ela acrescentou.

O charmoso trompetista Travis Antoine (Foto por Carol Marinho Martin)

O trombonista Andrae Murchinson (Foto por Carol Marinho Martin)

O saxofonista tenor Azemobo Audu (Foto por Carol Marinho Martin)

O momento “drum and bass” (Foto por Carol Marinho Martin)

Doreen cantou mais algumas músicas, passou pelo reggae, por homenagem a Bob Marley, voltou ao ska e saiu do palco, onde por alguns momentos permaneceram apenas o baixista Val Douglas e o baterista Sparrow Thompson: foi o momento de um “drum and bass acústico”. Douglas, que em razão de dificuldades de locomoção permaneceu sentado o tempo inteiro, maneja o baixo com jeito manso que engana quem não conhece seu trabalho também como tecladista, arranjador, compositor e produtor da banda.

A serenidade no olhar de Douglas (Foto por Carol Marinho Martin)

Os outros músicos retornam ao palco para o encerramento do show: executam mais algumas canções e encerram a noite após 1h10 de duração, com a famosa “Guns of Navarone”, a repetição de “Freedom Sounds”, seguido do bis com “You’re Wondering Now” e “Bridge View”. Parece pouco, mas é o tempo suficiente para saciar a sortuda plateia ali presente e deixar o desejo de que os Skatalites venham mais e mais vezes ao Brasil (e em locais com maior capacidade para atender seu numeroso público). Freedom!

Veja mais fotos aqui!

(Foto por Carol Marinho Martin)

(Foto por Carol Marinho Martin)

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